
A Terra está tremendo mais? O que a ciência diz sobre a atual onda de terremotos

Em menos de uma semana, o planeta registrou dois terremotos de grande magnitude. Nesta sexta-feira (14), um sismo de 7,7 graus atingiu o Mar de Flores, na Indonésia, gerando alerta de tsunami na região.
Quatro dias antes, em 10 de agosto, um tremor de 7,4 graus sacudiu o Chocó, na Colômbia, sendo classificado como o mais intenso já registrado no país neste século. Os dois eventos, somados a uma sequência de outros terremotos fortes ao longo do ano, geram a pergunta: a Terra está tremendo mais do que o normal?
WATCH – 🇮🇩 Footage shows damage in Ruteng, Indonesia, following the 7.7-magnitude earthquake. https://t.co/sIrEQsfY3Spic.twitter.com/osaasrAiln
— Political Pen (@politicalpen_) August 14, 2026
Segundo especialistas ouvidos por veículos internacionais, a resposta é não. O que se observa é uma concentração de eventos de grande magnitude em regiões historicamente sísmicas, e não um fenômeno anormal no comportamento do planeta.
Levantamentos do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) mostram que 2026 já acumula uma série de sismos de magnitude igual ou superior a 7,0 ao redor do mundo. Veja os principais registrados neste ano:

Indonésia (14/8) — terremoto de magnitude 7,7 atingiu o Mar de Flores nesta madrugada (horário local), a 68 km de Ende, na província de Nusa Tenggara Oriental, com profundidade de cerca de 10 km. O sismo foi seguido por réplicas de magnitude 5,6 e 5,9, e as autoridades locais chegaram a emitir alerta de tsunami para a região.
Colômbia (10/8) — sismo de magnitude 7,4 com epicentro em San José del Palmar, no Chocó, classificado como o mais intenso já registrado no país neste século. O evento provocou dezenas de réplicas e deixou mais de uma centena de mortos.
Venezuela (24/6) — duplo terremoto, de magnitudes 7,2 e 7,5, com epicentros próximos a Yaracuy e La Guaira. Tornou-se o mais letal do ano, com milhares de vítimas.
Japão (8/8) — sismo de magnitude 6,8 atingiu o país, deixando dezenas de mortos e feridos.
Filipinas (7/6) — terremoto de magnitude 7,8 em Mindanao, o de maior magnitude registrado no ano até agora.
- Japão (20/4) — sismo de magnitude 7,4 na costa de Sanriku/Miyako, na província de Iwate.
Indonésia (1º/4) — terremoto de magnitude 7,4 na costa de Molucas do Norte/Bitung.
Vanuatu (30/3) — terremoto de magnitude 7,3 na costa de Sanma/Luganville.
Tonga (24/3) — sismo de magnitude 7,5 em mar aberto, próximo a Vava'u/Neiafu.
Para explicar a sequência de eventos, a geóloga colombiana Adriana Ocampo, que atuou por décadas na agência espacial americana NASA, afirmou, em entrevista ao jornal La Nación, que a atividade sísmica registrada neste ano segue a dinâmica natural das placas tectônicas, sem indícios de comportamento fora do padrão.
Segundo ela, o terremoto na Colômbia resultou da subducção da placa de Nazca sob a placa Sul-Americana, enquanto o duplo abalo na Venezuela teve origem em uma falha de deslocamento lateral entre as placas do Caribe e Sul-Americana — processos considerados independentes entre si.
A especialista também descartou qualquer ligação entre o aumento da temperatura dos oceanos e a ocorrência desses terremotos, já que os eventos de grande magnitude resultam do acúmulo e da liberação de energia elástica em falhas geológicas, algo que não depende da temperatura da água.
Segundo ela, países como Colômbia, Japão, Indonésia e Filipinas integram o chamado Cinturão de Fogo do Pacífico, faixa que concentra a maior parte dos terremotos registrados no planeta. Já a Venezuela, apesar de ficar fora dessa região, também é uma área de risco sísmico conhecido há décadas.
Por que alguns terremotos causam mais danos?
Outro ponto destacado pelos especialistas é que a extensão dos danos não depende apenas da magnitude do abalo, mas também da profundidade do epicentro e da vulnerabilidade das construções locais. A sismóloga Lucy Jones, do California Institute of Technology (Caltech), explicou que, no caso da Colômbia, a maior profundidade do sismo fez com que as ondas se atenuassem ao se propagar até a superfície, reduzindo parcialmente seu impacto direto.
Terremotos superficiais, como os da Venezuela e o da Indonésia — ambos com epicentros a cerca de 10 km de profundidade —, costumam ter potencial destrutivo maior do que sismos de profundidade intermediária, como o da Colômbia, cujas ondas percorreram mais de 100 km antes de atingir a superfície.
Há ainda hipóteses mais recentes em estudo, como a possível influência da atividade solar sobre a sismicidade global, discutida por pesquisas de universidades japonesas. A ideia é que pequenas variações na temperatura da superfície terrestre, provocadas por erupções solares, poderiam interferir na pressão de falhas geológicas. Trata-se, porém, de uma linha de pesquisa ainda em desenvolvimento, distante de constituir consenso científico.
Apesar da percepção de que os terremotos estão mais frequentes, cientistas reforçam que ainda não existe tecnologia capaz de prever com precisão quando e onde um sismo vai ocorrer. O que houve, segundo os especialistas, foi uma coincidência temporal entre eventos de grande magnitude em diferentes zonas sísmicas do planeta, e não um sinal de instabilidade crescente da Terra como um todo.


