
Trump 'envenenou' o próprio acordo? Tratado nuclear saudita expõe impasse na diplomacia dos EUA

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, submeteu ao Congresso o acordo de cooperação nuclear civil com a Arábia Saudita na segunda-feira (24), revelaram funcionários do governo à Associated Press. Sua assinatura, porém, ainda estaria condicionada à normalização das relações diplomáticas entre sauditas e israelenses através dos Acordos de Abraão, conforme declarado pelo presidente ainda em julho.

O tratado, assinado em julho, estabelece a base jurídica para transferência de tecnologia, materiais e combustível nuclear por empresas americanas ao programa atômico saudita.
O pacto entra em vigor automaticamente após 90 dias de revisão congressional, a menos que ambas as Casas aprovem resolução de rejeição.
Contudo, analistas Yazen Zarour e Annelle Sheline argumentam à revista Responsible Statecraft que a exigência de normalização israelense pode travar indefinidamente o acordo, já que a Arábia Saudita demanda caminho claro para criação de Estado palestino antes de qualquer aproximação com Israel, que se opõe firmemente à solução de dois Estados.

Anteriormente negociando tal normalização, a Arábia Saudita, que não assinou os acordos de 2020, passou a caminhar no sentido oposto, especialmente diante da pacto de defesa mútuo com o Paquistão e a Turquia, firmado neste mês.
A condição imposta por Trump teria surpreendido os próprios negociadores americanos, impondo-se como tentativa de equilíbrio diplomático após duras críticas de Israel ao acordo, temendo corrida armamentista regional.
"A sobrevivência do acordo pode agora depender de qual relação estratégica o governo valoriza mais: a da Arábia Saudita ou a de Israel", apontam os analistas.
Contradições
O tratado, avaliado em dezenas de bilhões de dólares ao longo de 30 anos, permitirá à Arábia Saudita enriquecer urânio em solo próprio, confirmou o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright.

Wright minimizou a ausência do Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), defendendo que salvaguardas bilaterais serão suficientes, embora críticos alertem para riscos de proliferação nuclear e apontem a hipocrisia do governo americano em face da guerra ao Irã sob o mesmo pretexto.
"Essa contradição torna a política americana impossível de ser levada a sério", apontam Zarour e Shelne, citando congressistas democratas, que alertam para a inviabilização de "qualquer chance de se chegar a um acordo duradouro com o Irã."


