
EUA e China travam guerra silenciosa pelo 'coração da economia' do futuro

A rivalidade tecnológica entre os Estados Unidos e a China entrou em uma nova fase. O principal campo de batalha não se limita mais a tarifas, mas também abrange semicondutores, inteligência artificial (IA) e as matérias-primas necessárias para a produção de tecnologia avançada.
Washington tenta frear o desenvolvimento chinês por meio de controles de exportação, enquanto Pequim desenvolve sua própria indústria e busca novas formas de acesso às tecnologias ocidentais.
Falha nos controles de exportação
Os EUA impuseram restrições cada vez mais rigorosas à exportação de chips avançados para a China, especialmente processadores usados para treinar sistemas de IA.
No entanto, as medidas não têm conseguido deter o desenvolvimento do setor chinês. Seus modelos não apenas se igualam aos seus equivalentes ocidentais, como também os superam em popularidade entre os usuários.

Ao mesmo tempo, as restrições apresentam lacunas significativas. Em agosto, veio à tona um caso de funcionários de empresas de tecnologia em Taiwan acusados de facilitar o envio ilegal para a China continental de servidores equipados com chips avançados da Nvidia. O caso envolvia 130 servidores B300, destinados ao treinamento de modelos de IA e sujeitos a controles dos EUA.
A outra forma de contornar as restrições é usar os chips de forma remota. Empresas chinesas como Alibaba, ByteDance e Moonshot AI recorreram a centros de dados localizados em países do Sudeste Asiático, incluindo Tailândia e Malásia.
Assim, os processadores permanecem fisicamente fora da China, mas as empresas chinesas podem acessar seu poder computacional por meio da nuvem.
A China também está alcançando rápidos avanços na indústria nacional. A proporção de equipamentos de fabricação de semicondutores desenvolvidos internamente aumentou de 25% em 2024 para 35% no final de 2025, de acordo com dados publicados pelo South China Morning Post.

Um exemplo fundamental é a litografia. A China começou a desenvolver suas próprias máquinas, mas, segundo Chris Miller, especialista em alta tecnologia, as primeiras máquinas chinesas de litografia por imersão DUV são baseadas em uma tecnologia que a ASML (a maior fabricante holandesa de sistemas avançados de litografia) começou a produzir há quase 25 anos.
É um passo importante rumo à autossuficiência, mas ainda muito distante do nível tecnológico e de produção da empresa holandesa.
Outra arma: elementos de terras raras
A guerra tecnológica tem uma segunda frente: as matérias-primas. A China tem uma posição extraordinariamente forte no mercado de elementos de terras raras e outros minerais críticos. Pequim controla aproximadamente 70% da mineração global de terras raras e cerca de 90% do seu processamento.
O país também produz a grande maioria dos ímãs de neodímio usados em servidores, discos rígidos e outros equipamentos tecnológicos.

Isso confere à China uma vantagem que não depende exclusivamente da fabricação de chips. Mesmo que os EUA e seus aliados consigam aumentar a produção de semicondutores, ainda precisarão de minerais, materiais refinados e componentes com a cadeia de suprimentos fortemente ligada à China.
EUA estão tentando alterar a situação por meio de uma estratégia chamada de Pax Sílica, promovendo alianças internacionais, acordos com produtores de minerais e novos programas de investimento.
Em 2026, criaram o Fundo Pax Sílica, com outras iniciativas que visam acumular reservas estratégicas e desenvolver cadeias de suprimentos alternativas.

Batalha interna
Paradoxalmente, a competição tecnológica não se dá apenas entre EUA e China. Há também uma crescente disputa entre as próprias empresas americanas.
A Nvidia continua sendo a principal empresa no mercado, mas gigantes da tecnologia como Alphabet e Amazon estão desenvolvendo seus próprios processadores. A Alphabet aposta em suas TPUs (Unidades de Processamento Tensorial), enquanto a Amazon desenvolve a família Trainium.
A Meta* também está preparando seus próprios chips. Tais iniciativas podem reduzir a dependência da Nvidia, embora a empresa ainda mantenha uma posição dominante: sua participação no mercado de aceleradores de IA foi estimada em 86% em 2025, segundo o Los Angeles Times.
Quem está vencendo a guerra dos chips?
A resposta depende de qual parte da cadeia tecnológica você analisa. Nos chips mais avançados e nas máquinas de litografia de última geração, a vantagem ainda está claramente com os Estados Unidos e seus aliados.
A Chinafez progressos significativos, mas ainda tem dificuldades para produzir em massa os semicondutores mais sofisticados, e seu equipamento de fabricação ainda está atrás da ASML.
No entanto, o país detém uma posição muito mais forte quando se trata de expandir a produção de chips menos avançados, desenvolver sua própria cadeia industrial e, sobretudo, controlar as matérias-primas e seu processamento. Portanto, falar em um único vencedor é enganoso.
A guerra dos chips tem vários níveis: design, fabricação, litografia, poder computacional, matérias-primas e cadeias de suprimentos. No ápice tecnológico, o Ocidente mantém a vantagem. Em escala industrial e no controle de recursos críticos, a China exerce influência significativa.
A verdadeira batalha, portanto, não é apenas sobre quem fabrica o chip mais poderoso. É sobre quem será capaz de controlar toda a cadeia de suprimentos necessária para produzir milhões deles.
*Classificada na Rússia como uma organização extremista, cujas redes sociais são proibidas em seu território.

