
Oferta de ferrovias abre espaço para Rússia e China ajudarem a superar gargalo estrutural do Brasil

O Ministério dos Transportes apresentou na terça-feira (15), na B3, em São Paulo, uma carteira de projetos para reativar trechos ferroviários ociosos, desativados ou em processo de devolução e ampliar a utilização da malha ferroviária brasileira.
O novo modelo prevê chamamentos públicos para exploração privada de cerca de 10 mil quilômetros de ferrovias, potencialmente abrindo espaço para investimentos internacionais em uma infraestrutura considerada estratégica para a logística do país.

A primeira carteira apresentada pelo governo reúne sete trechos de "shortlines" — ferrovias de menor extensão voltadas à conexão de regiões produtoras e centros de consumo com a malha principal — e 12 pátios ferroviários ao longo da Ferrovia Norte-Sul, nos estados de Tocantins, Goiás e São Paulo. O Corredor Minas-Rio, que serviu de referência para o novo modelo, será o primeiro projeto a passar pelo chamamento público.
Onde entra a Rússia?
Em fevereiro deste ano, uma delegação da Russian Railways (RZD), empresa estatal responsável pela operação ferroviária da Rússia, foi recebida pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para discutir cooperação técnica e modernização da malha ferroviária brasileira.
A RZD transporta anualmente mais de 1,2 bilhão de toneladas de cargas e 1,3 bilhão de passageiros, enquanto as ferrovias respondem por cerca de 85% do transporte de cargas na Rússia. Segundo a ANTT, a transferência dessa expertise em monitoramento de cargas, controle operacional e formação de profissionais pode contribuir para a modernização da malha brasileira e para o aumento da participação ferroviária na matriz de transportes.
A possibilidade de investimentos russos no setor também já foi registrada em estudo da Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG), ligada ao Ministério das Relações Exteriores, que destacou o potencial dos investimentos da RZD no setor.
E a China?
Em maio de 2025, durante missão oficial a Pequim, o Ministério do Planejamento informou que o governo brasileiro negociava com a China um projeto de ferrovia de aproximadamente 3 mil km, conectando a região de Ilhéus ao Porto de Chancay, no Peru. "O plano é, de fato, rasgar o Brasil de leste a oeste", afirmou a ministra Simone Tebet à época.
Na mesma ocasião, Tebet afirmou que o Brasil não dispõe de capital privado nacional suficiente para projetos dessa dimensão e que seria necessário recorrer a investimentos estrangeiros. Ao destacar o potencial do gigante asiático, a ministra lembrou que Pequim reúne recursos tanto no setor privado quanto no público para financiar empreendimentos de infraestrutura.

