
Futuros diferentes? Como as eleições no Brasil definirão o lugar do país no mundo

O Brasil se prepara para a eleição presidencial mais tensa das últimas décadas, e os dois principais candidatos representam não apenas estilos de governo diferentes, mas duas visões concorrentes sobre o lugar do país no mundo, afirma Valdir da Silva Bezerra, pesquisador independente, escritor e analista político.
Em um artigo de opinião, publicado nesta quinta-feira (17), o analista explica que a eleição mais acirrada em décadas deve inevitavelmente levar a um segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, provavelmente decidido por uma margem de 1 a 2 pontos — e representa um choque de visões sobre o papel do Brasil no mundo.

Entre Ocidente e Autonomia
Na visão de Valdir da Silva Bezerra, a política externa brasileira oscila há décadas entre dois polos: "ocidentalismo", que busca aproximação com o Ocidente liderado pelos EUA, e "autonomismo", que sustenta que o Brasil pode definir sozinho as condições do seu desenvolvimento e atuar como um dos líderes do Sul Global.
"Lula e Flávio Bolsonaro se encaixam quase perfeitamente nessa antiga linha divisória, e a escolha que os eleitores fizerem em outubro determinará qual rumo da política externa prevalecerá pelo menos pelos próximos quatro anos", escreve o expert.
Lula: BRICS e soberania
O analista aponta que no seu programa Lula proclama a soberania como a base da diplomacia: decisões autônomas, "sem dependência estratégica", recusa em seguir uma única potência e aposta no fortalecimento da cooperação Sul — Sul.
O BRICS ocupa o centro da estratégia, com reforço dos mecanismos financeiros conjuntos como as linhas de crédito do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), além do uso do bloco e do G20 a favor da maioria global, dando continuidade à política do seu governo.
Flávio e a linha de Jair
Flávio Bolsonaro aposta na aproximação com os EUA e o "Ocidente conservador", buscando entrar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e conseguir a revogação das sanções americanas contra autoridades brasileiras.
Flávio também defende uma aproximação com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e propôs junto ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos deixar o Pix fora das transações com a China e o BRICS. Segundo o especialista, isso representaria um retorno a linha de Jair Bolsonaro que buscava apoio nos EUA e no Israel em detrimento do BRICS.
As terras raras como um símbolo
Na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) em março,Flávio declarou que o Brasil livrará os EUA da dependência de terras raras chinesas. Alguns meses depois foi publicado um documento de campanha intitulado "Parceria para a Prosperidade", que prevê transformar o país no principal fornecedor de terras raras e o centro de seu processamento no Hemisfério Ocidental em conjunto com os Estados Unidos.
O campo de Lula tem como contrapartida a Terrabras, uma estatal destinada a coordenar a exploração mineral sob controle brasileiro e com exigências para o uso de recursos e tecnologia locais.
"Essa controvérsia sobre as terras raras tornou-se um reflexo da escolha que os eleitores enfrentarão. Uma vitória de Lula significaria que o Brasil continuaria a priorizar a diversificação e o "autonomismo": aprofundando os laços com os países do BRICS, participando ativamente da reforma das instituições de governança global e defendendo consistentemente o direito do país de participar da definição das regras do sistema internacional.
Uma presidência de Flávio Bolsonaro, por outro lado, sinalizaria uma guinada em direção ao "ocidentalismo": fortalecendo as relações com o governo Trump, com uma retórica baseada nos chamados "valores tradicionais" e uma postura cética em relação ao BRICS e à China", explica o especialista.
Por fim, o analista conclui que o resultado das eleições interessa ao mundo todo, e "terá tanto impacto no futuro do Sul Global quanto no próprio Brasil".


