Após os resultados das eleições de domingo (4), ficou claro para toda a classe política do Brasil que a força política dos Bolsonaros não ficou restrita ao desempenho de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.
Mesmo com Jair Bolsonaro preso e inelegível, quatro integrantes de sua família foram eleitos para o Congresso, o PL (Partido Liberal) ampliou sua presença no Legislativo e candidatos apoiados diretamente por Flávio conquistaram mais da metade das cadeiras do Senado que estavam em disputa.
O resultado indica que o bolsonarismo pode estar passando de uma liderança concentrada em Jair Bolsonaro para uma estrutura política mais ampla, com família, partido e aliados ocupando diferentes espaços de poder.
Ao mesmo tempo, Michelle Bolsonaro e Carlos Bolsonaro foram eleitos para o Senado, enquanto Jair Renan Bolsonaro e Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, conquistaram vagas na Câmara.
Predominância bolsonarista
O alcance da influência de Flávio Bolsonaro aparece de forma mais clara no Senado.
Dos 54 nomes eleitos no domingo, 30 receberam apoio do filho do ex-presidente, segundo informa o Metrópoles.
O grupo inclui 19 candidatos do PL e outros 11 de diferentes partidos, o que mostra que a influência bolsonarista não ficou restrita à legenda de Jair Bolsonaro.
O resultado também chama atenção quando comparado ao desempenho dos candidatos apoiados por Lula.
A publicação também aponta que nomes apoiados pelo presidente Lula conquistaram 17 das 54 cadeiras em disputa.
Como os Bolsonaros consolidaram sua força
A consolidação política dos Bolsonaros não ocorreu apenas pela transferência de votos de Jair Bolsonaro para Flávio.
A estratégia envolveu a ocupação simultânea de diferentes espaços da política brasileira, com integrantes da família disputando cargos distintos, o fortalecimento do PL e a formação de uma rede de aliados fora do próprio clã.
Essa estrutura também encontrou sustentação em uma base eleitoral formada por diferentes grupos que passaram a se identificar com pautas defendidas pelo bolsonarismo.
Questões como costumes, religião, a resistência à legalização do aborto, segurança pública e oposição ao PT ajudaram a aproximar parte desses eleitores da família Bolsonaro, criando uma conexão que vai além da candidatura de um único integrante.
A força dessa identificação pode ser observada em diferentes características do eleitorado.
Pesquisa Datafolha divulgada em outubro de 2026 mostrou Flávio Bolsonaro com 52% das intenções de voto entre os evangélicos, contra 26% de Luiz Inácio Lula da Silva.
O recorte ajuda a dimensionar a proximidade eleitoral entre o candidato bolsonarista e esse segmento religioso.
Pesquisa PoderData de 2026 apontou que 68% dos brasileiros eram contrários à legalização do aborto, enquanto 22% eram favoráveis.
O levantamento não permite afirmar que todos os eleitores contrários à legalização do aborto apoiem os Bolsonaros, o dado ajuda a dimensionar o tamanho de uma posição que faz parte do discurso defendido pela família.
Essas características ajudam a explicar como os Bolsonaros conseguiram construir uma base política capaz de sobreviver à ausência de Jair Bolsonaro da disputa eleitoral.
Alexandre de Moraes
Outro elemento que pode ter contribuído para fortalecer o discurso bolsonarista durante a campanha foi a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF).
As revelações sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro no caso do Banco Master provocaram uma crise dentro da própria Corte e levaram a um confronto público entre Moraes e o ministro André Mendonça.
Reportagens publicadas durante a campanha de Flávio apontaram que a crise no Supremo passou a integrar aestratégia da oposição e ajudou a alimentar um discurso de crítica à atuação do Judiciário.
Não é possível, porém, estabelecer apenas a partir desses episódios uma relação direta de causa e efeito com o resultado das urnas.
O que os acontecimentos mostram é que o desgaste em torno do STF ofereceu ao bolsonarismo um tema adicional para mobilizar eleitores que já demonstravam desconfiança em relação ao Judiciário e oposição ao campo político associado a Lula.