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Vácuo da esquerda: NYT revela como igreja evangélica abre caminho para direita no Brasil

Enquanto sindicatos e partidos de massa se esvaziam, igrejas evangélicas e redes conservadoras ocupam o espaço deixado pela esquerda, afirma a socióloga política de Harvard Elizabeth McKenna em artigo de opinião ao jornal americano.
Vácuo da esquerda: NYT revela como igreja evangélica abre caminho para direita no BrasilAP / Bruna Prado

A eleição presidencial brasileira de 2026 expôs uma transformação profunda no tecido político e social do país, revelando o esvaziamento das organizações que, por décadas, conectaram a esquerda às camadas populares, opinou socióloga política em Harvard, Elizabeth McKenna, em um artigo publicado no The New York Times na segunda-feira (5).

Segundo ela, os resultados demonstraram o avanço de estruturas conservadoras que ocuparam o espaço deixado pelas forças de esquerda, com a direita vivendo o "triunfo mais decisivo desde o fim da ditadura militar".

Enfraquecimento de sindicatos 

Como exemplo das mudanças em curso, a socióloga cita a queda em filiação sindical no Brasil, que diminuiu quase pela metade entre 2012 e 2025. Segundo os dados da IBGE, em 2012 a sindicalização era de 16,1% da população ocupada, enquanto que em 2025 foi de 8,8%.

De acordo com McKenna, a razão é que o Partido dos Trabalhadores (PT), que construiu sua base em núcleos comunitários e organizações de bairro, abandonou progressivamente o trabalho de base para "se profissionalizar em torno da vitória nas eleições e da governança". Abrindo mão da presença local, o partido passou a depender exclusivamente dafigura de Luiz Inácio Lula da Silva.

Igreja evangélica preenche a lacuna

Quem preencheu o espaço vazio foram as igrejas evangélicas, como destaca a socióloga. A população evangélica saltou de 9% em 1991 para 27% em 2022, representando um acréscimo de mais de 30 milhões de pessoas.

Nos bairros mais pobres, os cultos são hoje mais presentes e engajadores do que qualquer partido ou movimento social. Na opinião de McKenna, tais redes se tornaram a base duradoura da direita, com os pastores orientando o voto dos fiéis com base em pautas morais.

"Uma mulher pentecostal pobre na periferia de São Paulo não nasce eleitora de Bolsonaro; aliás, os evangélicos passaram mais de uma década aliados ao PT. Mas, se um pastor estiver presente semanalmente para ajudá-la a conciliar sua fé com a política, ela certamente se tornará eleitora de Bolsonaro", opinou a socióloga.

  • Elizabeth McKenna é professora assistente na Harvard Kennedy School e autora do livro "The Paradox of Participation: Organizing Authoritarianism in Democratic Brazil".