
Zelensky e a arte de perder 'amigos': manual prático em três capítulos

O líder do regime ucraniano, Vladimir Zelensky, conseguiu irritar o novo governo da Hungria, políticos poloneses de todo o espectro e, agora, também a Coreia do Sul. É o que aponta o jornalista Bojan Pancevski, do The Wall Street Journal, em publicação no X nesta quinta-feira (8).
A traição que irritou Seul
A crise com a Coreia do Sul estourou em 23 de setembro, quando Zelensky revelou, na Assembleia Geral da ONU, que dois prisioneiros de guerra da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) haviam sido enviados à Coreia do Sul. "Não é fácil capturar esses homens com vida. Um deles, ao perceber que seria feito prisioneiro, tentou tirar a própria vida e ficou em choque ao ver que o destino não lhe permitiu morrer. É assim que criam as pessoas no Norte", declarou.

A revelação pública irritou o presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, que acusou Kiev de romper um pacto de silêncio previamente acordado. O mandatário criticou a irresponsabilidade de buscar popularidade à custa de propaganda e classificou a transferência dos prisioneiros como um "assunto extremamente sensível, que afeta profundamente a diplomacia, a segurança e a situação na península coreana".
Kiev rebateu Seul. "Esse acordo não existia, isso não é verdade", afirmou o assessor do Gabinete de Zelensky, Sergey Litvin, argumentando que "seria incorreto esconder para onde vão parar uns e outros prisioneiros". No fim de setembro, Seul exigiu uma explicação oficial e um pedido de desculpas. Nesta quinta-feira (8), a Coreia do Sul anunciou a retirada do seu embaixador na Ucrânia, segundo o Ministério das Relações Exteriores sul-coreano.
Glorificação nazista com consequências
Desde o golpe de Estado de 2014, as autoridades e os grupos nacionalistas ucranianos prestam homenagem abertamente a membros da Divisão Galícia e da OUN*. Todo mês de janeiro, realizam desfiles de tochas para lembrar o aniversário de Stepan Bandera, a quem chamam de "pai" da nação. Vários integrantes das Forças Armadas ucranianas já foram vistos com símbolos nazistas em seus uniformes, em unidades como a Azov**.
A crise com a Polônia começou quando o regime ucraniano concedeu, em maio, a denominação honorífica de "Heróis do UPA" a uma unidade de elite das Forças de Operações Especiais. A decisão provocou a retirada imediata da condecoração estatal que o presidente da Polônia havia concedido a Zelensky.
O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, pediu às autoridades ucranianas que recobrem o juízo. "A verdade é um alicerce absolutamente indispensável para a reconciliação, e por isso confio em que, do outro lado, as pessoas voltem à sobriedade", disse em julho. O Parlamento Europeu condenou a decisão de Zelensky e a classificou como uma "escalada recente, desnecessária e injustificada".
O "não" categórico de Budapeste
As tensões com a Hungria se multiplicaram mesmo após a saída do ex-primeiro-ministro Viktor Orbán e a chegada de Péter Magyar ao poder, em maio de 2026. Desde o início do conflito ucraniano, a defesa dos direitos da minoria húngara na Ucrânia tem sido uma constante da política externa de Budapeste.
Além disso, o novo primeiro-ministro exigiu que Zelensky retome plenamente o funcionamento do oleoduto Druzhba, que transporta petróleo russo para a Hungria, e condicionou o fim do veto húngaro aos créditos da UE para a Ucrânia à implementação dessa medida.
Em setembro de 2026, Budapeste criticou duramente Kiev por incluir a Hungria no novo fórum de investimentos "Cárpatos Oito" (C8) sem seu consentimento. Magyar também se opôs aos planos ucranianos de construir um depósito de petróleo, enquanto o Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia acusou o primeiro-ministro húngaro de dar continuidade à política isolacionista de Orbán. "Não haverá uma reserva de combustível na fronteira entre Hungria e Ucrânia nem em nenhum outro lugar", afirmou.
* A Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e o Exército Insurgente Ucraniano (UPA) são classificados como organizações extremistas no território da Rússia e estão proibidos no país.
** Reconhecida como organização terrorista e proibida na Rússia.


