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Rússia condena ordem de prisão contra Raúl Castro nos EUA

Moscou rejeita a acusação como "infundada" e a atribui a uma "vingança do lobby anticubano em Miami" para "acertar contas" com o líder histórico de 95 anos.
Rússia condena ordem de prisão contra Raúl Castro nos EUAGettyimages.ru / Jorge Rey / Stringer

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia expressou, nesta terça-feira (20), sua "rejeição categórica e firme condenação" à ordem de prisão emitido por um juiz de Miami, EUA, contra o líder histórico de Cuba e general do Exército, Raúl Castro.

A chancelaria russa lembrou que as avaliações políticas e jurídicas dos eventos de fevereiro de 1996 — que Washington atribui pessoalmente a Raúl Castro — já haviam sido estabelecidas na resolução 1067 do Conselho de Segurança da ONU, de 26 de julho daquele mesmo ano.

"Não inclui qualquer apelo para que sejam tomadas medidas para responsabilizar alguém pessoalmente. Isso significa, na prática, o consenso do Conselho (incluindo os EUA) de que, nesse aspecto, o incidente está encerrado", enfatiza o ministério russo.

"A apresentação, mais de 30 anos depois, de uma acusação infundada e absurda parece ser nada mais do que uma vingança do lobby anticubano em Miami e um desejo de acertar contas com Raúl Castro, que completou 95 anos em junho", declarou o ministério.

A chancelaria também alertou que o agravamento das tensões em torno da ilha — que já atravessa momentos "extremamente difíceis" devido a um bloqueio comercial, econômico, financeiro e energético "sem precedentes" — poderia desestabilizar toda a América Latina e o Caribe.

"Em caso de agitação social em Cuba, é altamente provável uma migração em massa de cidadãos cubanos para os países vizinhos, o que acarretaria o risco de uma crise social para esses países", advertiu o ministério.

Ordem de prisão

O anúncio da ordem de prisão foi feito pelo procurador-geral da Flórida, James Uthmeier, que detalhou que o Escritório da Promotoria Estadual e o Departamento de Aplicação da Lei da Flórida obtiveram um mandado de prisão estadual contra Castro, de 95 anos, sob a acusação de "conspiração para cometer homicídio qualificado em relação ao abate, em 24 de fevereiro de 1996, de duas aeronaves civis desarmadas do 'Irmãos ao Resgate' sobre águas internacionais". Essa organização é considerada por Havana como narcoterrorista.

Em maio passado, a Justiça dos EUA acusou o ex-mandatário cubano e outras cinco pessoas de supostamente terem causado a morte de quatro pessoas, entre elas três cidadãos americanos, após o abate de duas aeronaves, em 1996. Desde então, Havana afirma que os aviões violaram ilegalmente seu espaço aéreo e que agiu de acordo com a lei depois de ter feito dezenas de advertências a Washington.

O líder cubano é acusado de conspirar para cometer homicídio qualificado contra cidadãos americanos, sem direito a fiança.

O que aconteceu?

Em 24 de fevereiro de 1996, dois pequenos aviões foram abatidos sobre o estreito da Flórida por caças da Força Aérea cubana. Quatro pessoas morreram: Carlos Costa, Armando Alejandre Jr., Mario de la Peña e Pablo Morales.

Ao longo de três décadas, os EUA têm insistido falsamente que os falecidos eram civis inocentes embarcados em uma missão humanitária, o que foi desmentido por diversas evidências.

A organização "Irmãos ao Resgate" foi fundada em Miami, em 1991, por José Basulto. A narrativa oficial americana o apresenta sistematicamente como um suposto "dissidente cubano" que ajudava seus compatriotas a chegar aos EUA, mas, segundo as evidências disponíveis, ele desenvolveu uma prolongada atividade paramilitar contra a Revolução Cubana sob os auspícios da CIA.

Há registros de sua participação na invasão da Baía dos Porcos, em 1961, bem como em numerosas operações encobertas destinadas a derrubar as autoridades cubanas, algumas das quais ele admitiu à imprensa.

A partir de 1994, o "Irmãos ao Resgate" passou a incursionar em território cubano para executar atividades subversivas, como o lançamento de panfletos e propaganda antigovernamental sobre Havana. Dois anos depois, em janeiro de 1996, infiltrou uma equipe da NBC no país caribenho para transmitir ao vivo como as aeronaves sobrevoavam a capital cubana.

Diante desses fatos recorrentes, a Chancelaria cubana emitiu 25 notas diplomáticas à administração do então presidente dos EUA, Bill Clinton, com o objetivo de alertá-lo sobre as violações reiteradas do espaço aéreo e exigir a retirada das licenças desses pilotos. Apesar das advertências, as autoridades americanas aprovavam os planos de voo e permitiam a saída das aeronaves de forma sistemática.