
Lula, o homem que foi eleito presidente quatro vezes e entrou para a história

Aos 80 anos, Luiz Inácio Lula da Silva voltou a fazer história e se tornou pela quarta vez presidente do Brasil.
A vitória veio em um dia carregado de tensão durante a apuração e divulgação dos resultados. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com 100% das seções eleitorais totalizadas, Lula alcançou 51,79% (64.256.232 votos), enquanto Flávio Bolsonaro obteve 48,21% (59.826.041 votos).

Com esses resultados, Lula conseguiu pela primeira vez na história reverter o cenário deixado pelo primeiro turno, no dia 4 de outubro. Naquela ocasião, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), obteve 45,16% dos votos (53.879.538), atrás de Flávio, que liderou com 47,03% dos votos (56.104.503).
O filho da seca se tornou presidente
Nascido em Garanhuns, Pernambuco, em 27 de outubro de 1945, Luiz Inácio veio ao mundo no amanhecer de uma nova ordem mundial, com poucos meses de reconstrução europeia após a queda do nazifascismo na Segunda Guerra Mundial e apenas três dias após a instituição em vigor da Carta das Nações Unidas, que formalizou o concerto de países na ONU.
Enquanto a diplomacia de Oswaldo Aranha contribuía com os anos fundantes do órgão internacional e consolidava a prerrogativa do Brasil ser o primeiro país a ser ouvido em suas assembleias, dando direção a um mundo dividido na Guerra Fria e hesitante em falar primeiro, aquele que usaria dessa voz vivia uma infância pobre na seca pernambucana.

Lula, como muitos outros retirantes nordestinos que formaram a história do país, se mudou para São Paulo em uma viagem de caminhão por 13 dias, junto de sua mãe, a conhecida dona Lindu, e sete irmãos em busca de melhores oportunidades de vida e trabalho, em 1952.
Com apenas 12 anos, em 1956, ele começou a trabalhar na capital paulista como engraxate e em outras ocupações precárias.
Na maior metrópole do hemisfério sul, sob a urgência da pobreza, Lula conseguiu um emprego em uma fábrica de parafusos com apenas 14 anos, abandonando sua formação escolar. Essa experiência só pôde se tornar uma carreira na indústria metalúrgica, porém, graças a um curso de tornearia mecânica oferecido pelo SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) — que Lula descreve como "uma das melhores coisas que aconteceram em sua vida".
Em 1964, com 18 ou 19 anos, um acidente de trabalho fez com que perdesse o dedo mindinho da mão esquerda enquanto operava uma prensa transversal — uma realidade comum sob a realidade de insegurança do trabalho, ainda mais presente na formação nascente da indústria brasileira no século passado —, no que veio a se tornar um dos maiores símbolos de sua trajetória pessoal e da representação dos trabalhadores em sua figura, também utilizado para o escárnio de adversários políticos.
Luta pela democracia
No final daquela década, quando a ditadura militar que governava o país recrudescia a repressão e o controle sobre trabalhadores, estudantes e artistas, Lula passou a se envolver mais diretamente na atividade sindical e a lutar pela defesa dos direitos de sua categoria.

Em 1975, Lula finalmente ascendeu à direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, na época um dos mais importantes polos econômicos do Brasil, e passou a se destacar por sua oposição aberta ao regime, incluindo a organização de greves, duramente reprimidas pelos militares.
Em 1979, conforme o Sindicato politizava mais abertamente suas atividades e participava da reivindicação de direitos democráticos, Lula foi removido do posto pela ditadura militar pela primeira vez.
Lula chegou a ser preso por cerca de um mês em 1980, na sede do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), ao ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional pela ditadura militar.
O caminho até o poder
Conforme o Brasil caminhava para a redemocratização, e a criação de partidos era liberalizada, Lula foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), uma organização de esquerda que defendia a inclusão da massa popular e dos trabalhadores nos processos políticos e eleitorais do país.
O partido se baseava principalmente no sindicalismo como força motriz, mas incluía diversas correntes do marxismo-leninismo até alas progressistas da Igreja Católica, representada pela Teologia da Libertação. Anunciada em fevereiro de 1980, o TSE somente reconheceu a organização em fevereiro de 1982, abrindo caminho para uma candidatura derrotada de Lula ao governo de São Paulo.

O amplo apoio popular a Lula e ao PT foi em grande parte construído no movimento das Diretas Já, em 1984, sendo uma das principais forças políticas a denunciar o processo de eleição indireta que deu a Tancredo Neves o mandato presidencial, assumido por seu vice José Sarney após sua morte repentina antes da posse em abril de 1985.
O mandato político de Lula se concretizou tão somente nas eleições de 1986, quando Lula já havia completado 41 anos e se tornava o deputado federal mais votado do Brasil, para a legislatura de São Paulo.
A projeção de sua figura política garantiu assentos no Congresso ao partido e a vitória de importantes prefeituras, como Campinas e Porto Alegre. O alcance nacional de Lula orientou o lançamento de sucessivas campanhas do operário sindicalista à Presidência, e sucessivas derrotas.
Apesar de sua popularidade, Lula perdeu para o "caçador de marajás" Fernando Collor de Mello em 1989, em uma disputa pautada pela campanha amadora, falta de escolaridade e origens humildes de Lula que o desqualificariam para a posição aos olhos de seu oponente.
Collor, tornado infame pelo congelamento de reservas bancárias e por seu impeachment em 1992, foi notoriamente beneficiado pela Rede Globo de televisão nos debates presidenciais e pela farsa envolvendo o sequestro do empresário Abílio Diniz, dono do Grupo Pão de Açúcar; na prisão dos sequestrados, dois dias antes do segundo turno foram encontrados materiais de campanha do PT, posteriormente apontados por autoridades federais como indícios plantados pelos agentes de polícia.

As derrotas se repetiram em 1994 e 1998 contra o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, em cujo primeiro mandato instituiu a possibilidade de reeleição para o cargo.
A direção petista, nestas ocasiões, buscou se apropriar de uma versão particular de "socialismo petista", ilustrado em um manifesto que o aproximou da tradição de não-alinhamento ao se afastar da associação com a União Soviética. A revisão de imagem e direção não foi suficiente para superar FHC, a quem se atribuía o sucesso e a autoria do Plano Real, enquanto ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco. Ambas as eleições foram decididas em primeiro turno.
A sequência de derrotas foi interrompida em 2002, quando FHC não poderia mais concorrer a um novo mandato e sua popularidade estava abalada devido à má performance econômica, manchada pela alta dos juros, do desemprego e da dívida externa com o FMI, para além do processo acelerado de privatizações que fora iniciado por Collor.
Firmando compromissos mais amplos, a reconfiguração da figura de Lula se materializou na "Carta aos Brasileiros" em junho do mesmo ano eleitoral, que acenou aos setores financeiros como um esforço de apresentar sua candidatura como aquela capaz de um pacto nacional de pacificação. Associado ao radicalismo pela política tradicional, Lula foi gradualmente repaginado num candidato moderado capaz de atrair apoio de vários setores da sociedade.

Sua vitória se concretizou com maior vantagem e participação eleitorais que as de seu antecessor.
Sucesso inconfundível e insatisfação popular
Ao longo de dois mandatos, Lula implementou um conjunto de programas sociais voltados ao combate à pobreza e à desigualdade, aliados a um forte apoio à indústria local, ao alinhamento geopolítico com outros líderes de esquerda que governavam a América Latina, promovendo uma diplomacia Sul-Sul que tirou o Brasil da órbita de alinhamento automático com os Estados Unidos na política internacional.
Apesar de figurar no escândalo de compra de votos conhecido como Mensalão, em 2005, que levou o próprio presidente à televisão para um pedido público de desculpas e outras lideranças petistas à prisão — para além de quadros do PL, PP, PMDB, PTB e outros —, Lula terminou ambos os mandatos em 2006 e 2010 com índices recordes de aprovação na história do país.
Impedido constitucionalmente de concorrer a um terceiro mandato, passou o bastão para sua ex-chefe de gabinete, Dilma Rousseff, que obteve a vitória eleitoral e ficou encarregada de dar continuidade ao projeto político por ele iniciado como a primeira mulher da história eleita para o cargo.
Durante os dois mandatos consecutivos de Dilma no Planalto, a presidente e o PT enfrentaram a insatisfação popular nas ruas em 2013 — iniciada por mobilizações contra o encarecimento dos transportes públicos e transformada em uma denúncia institucional mais ampla que gestou a renovação oposicionista ao partido, na forma do Movimento Brasil Livre (MBL) — e um megaescândalo de corrupção conhecido como Petrolão destrinchado entre 2014 e 2021 pela Operação Lava-Jato, da Polícia Federal.

O escândalo cobrou as associações do PT à elite do setor produtivo nacional e à economia de estatais ao centralizar práticas criminosas nas operações da construtora Odebrecht e na Petrobras. Através de uma ampla publicização do processo judicial e da instrumentalização de delações premiadas nas investigações e na cobertura de imprensa — somente possibilitadas por lei aprovada no ano anterior, como uma das concessões do governo Dilma às pautas das mobilizações de 2013 — o partido foi mergulhado em um amplo processo de desgaste que culminou na pauta e execução doimpeachment de Dilma Rousseff em 2016.
Um caminho de virada(s)
A crise política chegou à pessoa de Lula por meio de acusações de crimes como lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio, mais notórias pela suspeita de recebimento de propinas de empreiteiras e de favorecimento por imóveis, como um sítio em Atibaia e um apartamento triplex no Guarujá, ambos em São Paulo.
Em 2017, Lula foi condenado pelo então juiz federal da Comarca de Curitiba, Sergio Moro, em uma pena que chegou a 12 anos e 1 mês de prisão ao ser aumentada em segunda instância. O então ex-presidente se entregou à PF em abril de 2018, em meio a uma discussão no STF sobre a possibilidade de cumprimento de pena antes de esgotamento dos recursos judiciais.

Preso, Lula foi impedido de concorrer contra Jair Bolsonaro em 2018, uma nova liderança da direita brasileira, que representava uma guinada ao populismo radical e a substituição de uma direita tradicional contra a qual Lula concorreu desde 1989. Moro, juiz responsável por sua condenação e por retirá-lo do pleito, tornou-se ministro da Justiça de Bolsonaro, antes de romper com o governo por interferências de Jair em investigações da Polícia Federal.
O processo de condenação de Lula, amplamente criticado por falta de provas e avanço de interesses políticos contra o petista, voltou ao centro de questionamentos em 2019, quando diálogos de coordenação entre juiz e promotoria em processos da Lava-Jato tornou Moro suspeito para julgar os processos de Lula, levando à anulação das condenações e à libertação do ex-presidente.
Em 2022, com os direitos políticos restabelecidos, Lula enfrentou Jair Bolsonaro, também desgastado por resultados econômicos negativos e sua postura durante a pandemia de Covid-19. Derrotado, uma tentativa de golpe de Estado planejada no final do mesmo ano foi descoberta pela PF e levou Bolsonaro à prisão.
Seu terceiro mandato foi marcado pelo embate com o legado político de seu antecessor e por confrontos com os EUA. Sem recuar, Lula fez frente à reorganização do bolsonarismo com o escanteio da liderança de Jair e à reorientação regional da América Latina promovida pelo governo americano — especialmente quando esses dois movimentos passaram a se confundir.

O foco central em um discurso soberanista se tornou seu principal mote de campanha, pressionada pela relativa derrota em primeiro turno para a candidatura de Flávio Bolsonaro, escolhido como sucessor do bolsonarismo por seu pai na pretensão de retomada da liderança nacional, com uma pauta de recrudescimento da segurança nacional e de acomodação ao capital estrangeiro.
A virada no segundo turno, atribuída à reavaliação das estratégias da campanha petista através da ampla e contínua mobilização digital e nas ruas, é totalmente inédita na história da atual República. Lula, agora, se torna o primeiro presidente a conseguir um quarto mandato na história do Brasil e o mais velho a assumir o cargo.
Incumbido de enfrentar a atual contestação do resultado eleitoral por seu opositor, o desafio de Lula pode começar em assegurar o próprio cumprimento deste mandato e, mais além, definir a soma de seu legado político na escolha da liderança que sucederá seu legado — um período que, tanto para apoiadores como para detratores, não é nada menos que uma Era.
