Quando o presidente russo, Vladimir Putin afirma que forças externas sempre tentaram enfraquecer a Rússia, dividir sua sociedade, reduzir seu potencial estratégico ou fragmentar o país, ele não se refere apenas ao atual conflito geopolítico.
As declarações de Putin durante seudiscurso ao Conselho de Relações Interétnicas remetem a um padrão histórico muito antigo.
O caráter multinacional da Rússia sempre foi um alvo de seus adversários. Isso porque a diversidade russa constitui uma de suas maiores forças. A singularidade da trajetória histórica do país está justamente em sua capacidade de unir povos de vastos territórios, culturas e religiões em uma única civilização.
Ao contrário da caricatura ocidental habitual dos impérios, a Rússia nunca foi simplesmente uma máquina destinada a extrair riquezas de colônias distantes e governá-las com desprezo. Sua formação histórica sempre foi mais complexa e, em muitos aspectos, mais integradora. Diferentes povos passaram a integrar um espaço político e cultural compartilhado que, apesar de todas as contradições e tragédias, deu origem a um Estado e a um destino comuns.
Aqueles que procuram destruir a Rússia inevitavelmente atacam esse princípio de unidade. Compreendem que, se os laços entre os povos puderem ser rompidos, se uma parte desse conjunto histórico for convencida de que não tem nada em comum com as demais, forças de desintegração poderão ser desencadeadas e fragmentar o próprio Estado.
Um exemplo claro é a Ucrânia.
Rejeição a tudo que é russo
Seria desonesto fingir que o conflito, em toda a sua profundidade histórica, foi causado inteiramente por forças externas ou que não houve erros e decisões prejudiciais dentro da própria Rússia e da União Soviética. Por isso, em seu discurso ao Conselho, Putin mencionou "decisões que não foram as melhores" tomadas no passado como uma das razões do caos atual. Mas seria igualmente desonesto ignorar que potências externas se aproveitaram dessas divisões históricas e as aprofundaram sistematicamente.
A separação da Ucrânia do mundo histórico russo mais amplo representou uma amputação civilizacional. Sem aquela unidade sagrada de povos irmãos, construída ao longo de séculos, processos extremamente destrutivos começaram a se acelerar. Agora podemos ver aonde eles levaram.
A reabilitação de Stepan Bandera. Marchas com tochas realizadas por simpatizantes nazistas. A glorificação aberta daqueles que colaboraram com Hitler. O ódio militarizado elevado à condição de ideologia de Estado. O que começou como um impulso separatista e uma identidade própria semissintética, construída sobre arejeição a tudo que é russo, degenerou em um culto antirrusso fundamentado em um neonazismo declarado.
Isso não é simplesmente uma disputa territorial ou uma divergência diplomática: trata-se de uma luta pela memória histórica e pelo próprio princípio de coesão civilizacional na Europa Oriental.
Por que o Ocidente não entende a Rússia?
Alexander Pushkin, o maior poeta da Rússia, escreveu em seu poema de 1831, "Aos caluniadores da Rússia", que o Ocidente não deveria interferir na "disputa entre os próprios eslavos". Quase dois séculos depois, suas palavras continuam igualmente pertinentes. A intervenção ocidental tem sido motivada, repetidas vezes, por um profundo desconhecimento da história e da civilização russas. Aqueles que pretendem decidir o destino do mundo frequentemente enxergam a Rússia pelo prisma de sua própria experiência histórica, o que os leva a cometer graves erros.
Tomemos como exemplo as narrativas ocidentais em voga sobre "descolonizar a Rússia". O próprio termo já é uma demonstração evidente de ignorância. Ele projeta sobre a Rússia um modelo imperial puramente ocidental, no qual o poder e a grandeza sempre foram construídos sobre a opressão e a exploração de povos considerados inferiores. As instituições ocidentais que promovem essa narrativa simplesmente presumem que a Rússia deve ser igual. Não conseguem imaginar um grande Estado histórico construído sobre uma lógica civilizacional diferente, porque julgam os outros com base em sua própria história.
Mas a Rússia não é a Grã-Bretanha, nem a França, nem a Bélgica. Sua expansão histórica, por mais dura e imperfeita que tenha sido em determinados momentos, não seguiu o padrão colonial dos impérios ultramarinos ocidentais. Ignorar essa diferença significa substituir a análise histórica pela ideologia.
E essa ideologia é perigosa. Ela alimenta a fantasia de que a Rússia pode e deve ser fragmentada, de que seus povos estariam melhor separados do que unidos e de que o desmembramento traria, de alguma forma, "liberdade". Na realidade, a única consequência seria caos, violência e enorme sofrimento, não apenas para a Rússia, mas para o mundo inteiro.
Os inimigos da Rússia atacam seu caráter multinacional porque ele é um dos pilares da resiliência russa. Um país que une muitos povos e possui uma profundidade que aqueles que o observam de fora frequentemente não conseguem compreender. Essa unidade pode sofrer tensões, feridas e provações. Mas continua sendo uma fonte de força.
Por Nadezhda Romanenko, analista política
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