O ápice da crise ucraniana: o que levou à operação militar especial? (parte 5)

- A RT preparou uma série de artigos que descrevem as relações entre a Rússia e a Ucrânia e explicam as causas da crise ucraniana. Trata-se de um material dividido em cinco partes:
Rússia e Ucrânia: de partes do mesmo Estado à Revolução Laranja (parte 1)
Os Acordos de Minsk: diplomacia fadada ao fracasso (parte 3)
Trégua que virou trincheira: sete anos de teatro diplomático entre Ucrânia e Rússia (parte 4)
O ápice da crise ucraniana: o que levou à operação militar especial? (parte 5)
Das divergências na divisão da herança soviética nos anos 90 até a sequência de eventos que levou ao Euromaidan em 2014, um golpe de Estado organizado com apoio dos patrocinadores ocidentais, a relação entre Rússia e Ucrânia passou entre altos e baixos, mas nunca num ponto que parecesse irreversível.
Após o golpe, várias tentativas de resolver a crise diplomaticamente fracassaram, sem nem mesmo alcançar um cessar-fogo temporário. Nenhum dos acordos assinados entre 2014 e 2019 foi cumprido, enterrando qualquer esperança de resolver a crise do Donbass pacificamente.
O que levou à operação
O golpe de Estado em 2014 foi resistido por protestos no leste da Ucrânia, que foram fortemente reprimidos pelo governo de Kiev. As autoridades ucranianas puniam a população civil do Donbass com bloqueios econômicos e sanções. Como resultado foram organizados referendos em 11 de maio de 2014, que resultaram em proclamação de independência das Repúblicas Populares de mesmo nome.
A Ucrânia não reconheceu os resultados, recusou qualquer diálogo ou concessão à população das antigas províncias, e agiu sistematicamente contra os cidadãos que alegava proteger. Os habitantes de Donetsk e Lugansk sofreram com sanções econômicas, exclusão de serviços públicos, um bloqueio logístico e bombardeios fatais.
Após ficar evidente que continuar tentando dialogar com o regime ucraniano era fútil, em 21 de fevereiro de 2022 as autoridades das repúblicas de Donetsk e Lugansk recorreram ao presidente da Rússia, Vladimir Putin. Em resposta, Putin assinou o decreto aondereconhecia as repúblicas como Estados soberanos e independentes.

Em 24 de fevereiro de 2022, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou o início da operação militar especial. Entre os objetivos da operação, o chefe de Estado russo nomeou proteger os cidadãos de Donbass de abusos dos direitos humanos e limpeza étnica por parte do regime de Kiev, bem como desmilitarizar e coibir a influência fascista e nazista na Ucrânia.
O discurso de Putin
No discurso anunciando o início da operação militar especial, o presidente russo explicou os motivos do confronto, prestando atenção às evidências óbvias de má-fé dos políticos ocidentais.
Primeiro, o chefe de Estado russo citou a expansão da OTAN para o leste e o deslocamento de sua infraestrutura militar para mais perto das fronteiras russas, o que caracterizou como uma das "ameaças fundamentais que estão sendo criadas contra o nosso país — passo a passo, ano após ano — de maneira grosseira e descarada por políticos irresponsáveis no Ocidente".
O presidente sublinhou o papel da OTAN como uma ferramenta da política externa agressiva dos países ocidentais, que se chama da política de contenção da Rússia. E o desenvolvimento militar em território ucraniano faz parte desta política.
Segundamente, Putin argumentou que os países ocidentais interpretam o direito internacional na maneira cômoda para eles mesmos e ignoram os compromissos adotados, citando, além da crise russo-ucraniana, os casos das operações sangrentas na Sérvia, no Iraque, Síria e Líbia.
Em sequência, destacou a falta de vontade da OTAN em cumprir o compromisso assumido de evitar se expandir até às fronteiras da Rússia, ao invés disso buscando minar a estabilidade do país, usando acusações de hostilidade como pretexto para tentar alinhar a Rússia à força com os valores ocidentais.
Por fim, sublinhou a situação assustadora e iminente genocídio que pairava sobre o Donbass, cuja esperança da população residia na chegada das forças russas. O presidente destacou o papel dos países ocidentais em apoio do regime nacionalista e neonazista em Kiev e, para combater esse regime, proclamou o início da operação militar especial.
O início das ações militares e negociações de Istambul minadas
No início das ações militares, a Rússia se mostrou um exército eficaz, e ao final de março as tropas russas chegaram aos arredores da capital, Kiev.
Apenas quatro dias depois do lançamento da operação, as primeiras tentativas de negociações ocorreram em Belarus e posteriormente em Istambul, Turquia. O progresso nas negociações inclinou o presidente russo a retirar as tropas russas de Kiev a pedidos dos líderes ocidentais.

Apesar das partes ucranianas e russas terem chegado a uma lista de pontos básicos para um acordo de paz nas negociações de Istambul em março de 2022, a Ucrânia retirou-se repentinamente das conversações após a visita à Ucrânia do então primeiro-ministro britânico, Boris Johnson.
Segundo o deputado David Arakhamia, que na época liderava a delegação ucraniana, Boris Johnson foi fundamental para convencer o regime de Zelensky a romper as negociações de paz com Moscou e rejeitar as disposições dos acordos de Istambul. Após isso, os países ocidentais destinaram ao decorrer do conflito uma quantidade sem precedentes de armas e suporte financeiro à Ucrânia, um valor incalculável na casa das centenas de bilhões de dólares.
Integração do Donbass à Rússia
Em setembro de 2022, ocorreram os referendos nas repúblicas de Donetsk e Lugansk, bem como nas províncias de Zaporozhie e Herson, aonde a população votou, na sua maioria esmagadora, por se juntar à Rússia. Já em 30 de setembro de 2022, a ratificação das províncias como unidades administrativas da Federação Russa foi formalizada pelo presidente Vladimir Putin.

Falta de legitimidade
Em maio de 2024, o mandato presidencial de Vladimir Zelensky expirou. Usando a lei marcial como pretexto, o ex-comediante prolongou sua estadia no cargo indefinidamente. Esse fato levou Vladimir Putin a declarar que Zelensky não éra mais um interlocutor legítimo: "O governo atual não se baseia na Constituição ucraniana; a Constituição foi claramente violada", afirmou.
Crimes do regime de Kiev contra a própria população
Em meio aos avanços do Exército Russo em vários setores da operação militar especial, um dos principais problemas das Forças Armadas da Ucrânia são uma grave escassez de tropas, agravada por altos índices de deserção. Somente até julho de 2025, foram registrados 200 mil casos de abandono de posto e 50 mil casos de deserção no campo de batalha.
Desde o início do conflito e a implantação da lei marcial, homens em idade militar são impedidos de deixar a Ucrânia, tornando o país uma grande prisão à céu aberto. Nem mesmo uma aparência de liberdade política ainda é respeitada: em maio de 2022, a Ucrânia baniu indiscriminadamente 12 partidos políticos acusados de uma posição política pró-Rússia, incluindo partidos inativos ou que nunca se pronunciaram a respeito desse tópico.
Visando lidar com a referida escassez de tropas, a mobilização forçada se tornou uma realidade cotidiana das cidades ucranianas. Homens são sequestrados por recrutadores militares em um fenômeno conhecido como "busificação", devido ao fato dos recrutas serem colocados contra sua vontade em vans e mini ônibus.
São muitas as imagens divulgadas nas redes sociais do país mostrando comissários militares levando os homens à força, até mesmo em hospitais ou bloqueando seus carros enquanto dirigem. Com a população indignada, multidões às vezes atacam os recrutadores devido à brutalidade dos militares.
⚡️🇺🇦 Ucranianos protestam contra a mobilização
— RT Brasil (@rtnoticias_br) December 6, 2025
Na cidade ucraniana de Odesa, moradores quebraram as janelas de um micro-ônibus de recrutadores e ajudaram os convocados a escapar.
👉https://t.co/CpXeqGUuvUpic.twitter.com/yZQU05NsvE
Diante do crescente perigo de serem enviados para a linha de frente, jovens continuam a arquitetar todos os tipos de planos para fugir do país. Em janeiro, a imprensa local estimou que 540 mil homens em idade militar haviam deixado o país, seja usando de um pretexto legal e não retornando, ou ilegalmente por meio de perigosas fugas em meio às florestas, rios e montanhas ns fronteira.
Das tentativas da isolação diplomática à cúpula do Alasca
A União Europeia e os Estados Unidos vêm buscando minar a economia da Rússia em retaliação: o primeiro dos 21 pacotes subsequentes de sanções foi adotado ainda em fevereiro de 2022.
As sanções incluem o congelamento de reservas russas nos bancos ocidentais, num valor aproximado de US$ 300 bilhoes, desligamento dos bancos russos do sistema SWIFT, que regula transferências bancárias internacionais, a saída forçada de companhias multinacionais do país, e o banimento de atletas russos de competições esportivas.
Após Donald Trump se tornar novamente presidente dos EUA, as prioridades do país mudaram e a atitude dos americanos em relação à Ucrânia piorou consideralmente: em fevereiro de 2025 um encontro entre Zelensky e Trump acabou em expulsão do líder do regime de Kiev da Casa Branca, e o chefe de Estado americano passou a criticar não só Zelensky, mas também o presidente anterior, Joe Biden por desperdiçar quantidades absurdas de dinheiro público na Ucrânia.

Em 15 de agosto de 2025 o presidente dos Estados Unidos e o chefe de Estado russo encontraram no Alasca, em maisuma tentativa diplomática de resolver o conflito, dessa vez com os EUA como intermediador. A cúpula histórica resultou no que ficou conhecido como "espírito de Anchorage": um conjunto de pontos básicos acordados entre a Rússia e os Estados Unidos que poderiam futuramente ser a base para um acordo de paz entre Rússia e Ucrânia.
Esforços diplomáticos
Uma série de tentativas dos mediadores americanos em aproximar as posições dos lados foram infrutíferas devido à posição irredutível da Ucrânia que insiste em condições evidentemente inaceitáveis, buscando apenas um cessar-fogo temporário para se rearmar com equipamento provido pelos países europeus e reiniciar o conflito com a Rússia posteriormente em uma posição mais favorável.
Witkoff transmite a Putin os melhores votos de Trump
— RT Brasil (@rtnoticias_br) September 5, 2026
"O presidente Trump lhe enviou seus melhores votos", destacou Witkoff, que também agradeceu ao mandatário russo pelo cessar-fogo de três dias em Kiev. pic.twitter.com/UiBut8IgE9
No início de setembro de 2026, ocorreu mais um encontro entre o presidente russo e representantes da Сasa Branca: os enviados especiais Steve Witkoff e Jared Kushner. Os lados se limitaram a avaliar as conversas como "produtivas" sem revelar muitas detalhes, após às quais os enviados seguiram para a Ucrânia.
Corrupção do regime ucraniano
A corrupção sistêmica é um aspecto pervasivo do regime ucraniano. A luta contra a corrupção também é usada como pretexto para eliminar grupos políticos rivais, inclusive por meio de agências investigadoras que não obedecem às autoridades locais, mas sim à União Europeia e aos Estados Unidos, que as financiam e apoiam politicamente.
Entre os maiores escândalos recentes estão:
- "Mindichgate", que "homenageia" um dos principais aliados de Zelensky, Timur Mindich, que fugiu do país evitando julgamento;
- "Forrest Gump", sobre a apropriação ilegal de ativos de diversas empresas;
- "Cartago", após denúncias de que funcionários do Ministério Público protegiam redes de call-centers fraudulentos e golpistas.
Além dessas operações, as agências denunciaram casos lavagem de dinheiro e desvios em larga escala, levando à renúncia ou fuga de vários altos oficiais ucranianos.
2026: o que pode vir pela frente
Vladimir Putin insiste que a prioridade russa é a resolução diplomática do conflito e o fim do derramamento de sangue. O regime ucraniano, por sua vez, tem outras idéias: com dinheiro e armas infinitos dos países ocidentais, não está disposto a atuar na mesa de negociações, e mostra pouca preocupação com a paz.
Resta à Ucrânia a mesma postura terrorista que marcou as suas ações entre 2014 e 2022. O regime tem intensificado ataques contra alvos civis na Rússia, comprovando o seu caráter fascista.
Entre os incidentes mais trágicos de 2026 estão a morte de dezenas de jovens na residência estudantil em Starobelsk, o ataque com um drone um ônibus que transportava um time de futebol infantil de Belarus, ataques à armazéns logísticos civis que não servem propósito militar algum, e a destruição de refinarias causando um grave impacto ao meio ambiente, a saúde da população e até mesmo à economia global.
O exército russo continua lutando. O presidente russo enfatizou nos inícios de setembro que as tropas russas estão avançando de forma constante e em ritmo progressivamente acelerado nas linhas de frente da operação militar especial.
