
Euromaidan e Crimeia: como o golpe de Estado levou à reunificação da península com a Rússia (parte 2)

- A RT preparou uma série de artigos que descrevem as relações entre a Rússia e a Ucrânia e explicam as causas da crise ucraniana. Trata-se de um material dividido em cinco partes:
Rússia e Ucrânia: de partes do mesmo Estado à Revolução Laranja (parte 1)
Os Acordos de Minsk: diplomacia fadada ao fracasso (parte 3)
Trégua que virou trincheira: sete anos de teatro diplomático entre Ucrânia e Rússia (parte 4)
O ápice da crise ucraniana: o que levou à operação militar especial? (parte 5)
O relacionamento entre a Rússia e Ucrânia após a dissolução da União Soviética teve seus percalços entre 1991 e 2013. Ocorreram disputas comerciais em torno das exportações de gás natural, impasses na redistribuição dos recursos militares da URSS, incluindo as armas nucleares, e as tentativas do lado ucraniano de ficar "em cima do muro" e manter boas relações com a Rússia e o Ocidente ao mesmo tempo.
Porém, as desavenças atingiram um pico histórico em 2013-2014, nos eventos que entraram na história como o "Euromaidan".
Como tudo começou
Em 2012-2013 a Ucrânia estava na fase ativa da preparação para o Acordo de Associação da União Europeia, cuja assinatura colocaria o país em uma situação contraditória. Kiev se tornaria uma "zona cinzenta" aonde produtos tanto da Rússia como da União Europeia entrariam sem pagar tarifas.
O comércio com a Rússia era mais diverso e envolvia mercadorias de maior valor agregado, enquanto exportar produtos de manufaturados de maior complexidade para a Europa seria difícil devido à burocracia envolvida e à competição com empresas europeias. Por isso, o então presidente do país, Viktor Yanukovich, acreditava que o acordo em vigor com a Rússia superava a possível vantagem do futuro acordo com a Europa.
Não estando pronto para consequências de um período de transição em que o país arcaria com as desvantagens dos dois lados ao mesmo tempo, Yanukovich decidiu adiar a assinatura do acordo, o que provocou uma reação agressiva tanto nos setores radical-nacionalistas da população ucraniana quanto no Ocidente.

As razões profundas da crise

A crise política não foi simplesmente desencadeada pela decisão de adiar, ou mesmo cancelar, o acordo econômico com a União Europeia. Porém, a liderança russa já denunciava os verdadeiros motivos do início dos eventos que já assolam a Ucrânia há mais de uma década.
Primeiro, o lado europeu não estava disposto a concessões e tratava o caso da Ucrânia como um campo de batalha: na visão deles, boas relações políticas e comerciais com ambos os lados era impossíveis e o país seria obrigado a escolher um dos lados. A narrativa de antagonismo e incompatibilidade propagada pela União Europeia persiste até hoje.
O discurso nacionalista radical fomentado por este raciocínio se sobrepôs a problemas internos da Ucrânia, que incluíam a corrupção permeando todos os aspectos do país e a instabilidade política, levando milhares de pessoas a protestar nas ruas.
Protestos de novembro
Em 21 de novembro de 2013, o Conselho de Ministros da Ucrânia decidiu suspender a preparação para a assinatura do Acordo de Associação com a União Europeia. Na mesma noite, os primeiros manifestantes se reuniram na Praça da Independência, em Kiev, conhecida como Maidan.
Já nos primeiros dias surgiram as informações sobre envolvimento ocidental na organização dos protestos: a embaixada americana estava apoiando a preparação logística das manifestações em massa.

Em 24 de novembro, o número de participantes havia crescido para várias dezenas de milhares de pessoas. No mesmo dia, o primeiro-ministro Nikolay Azarov fez um pronunciamento aos manifestantes, tentando reduzir a tensão.
Em 28 de novembro, o clima na Praça Maidan era relativamente calmo — as pessoas aguardavam o resultado da cúpula da Parceria Oriental em Vilnius, onde se decidiria o destino do acordo com a UE.
Quando, em 29 de novembro, soube-se que o documento não havia sido assinado, surgiram na praça os primeiros pedidos de renúncia do presidente Viktor Yanukovich, e à noite ocorreram confrontos com a polícia.
O momento decisivo foi a noite de 30 de novembro: a unidade especial "Berkut" dispersou o acampamento de protesto. A dispersão foi precedida por ações de jovens agressivos que atiraram pedras nos policiais e usaram gás lacrimogêneo. Tornou-se o ponto de virada, a partir do qual o protesto pacífico se tornou violento e adquiriu um caráter político acentuado.

Exigências políticas
Já no dia seguinte, 1º de dezembro, as manifestações se intensificaram, com multidões tentando avançar até a Administração Presidencial, e houve confrontos junto ao prédio do Conselho de Ministros, nos quais 126 policiais ficaram feridos.
Na primeira quinzena de dezembro, a situação em Kiev por vezes se estabilizava — as autoridades propunham negociações, enquanto a oposição exigia, como condição prévia, a punição dos responsáveis pela dispersão de 30 de novembro.
Em 8 de dezembro, os manifestantes derrubaram um monumento a Lênin no centro da cidade. Em 10 de dezembro, a subsecretária de Estado dos EUA Victoria Nuland visitou Kiev e se encontrou com manifestantes na praça — escancarando a influência estrangeira no movimento apelidado de "Euromaidan".
Victoria Nuland, junto com o embaixador dos EUA na Ucrânia, Geoffrey Pyatt, ofereceu aos manifestantes e policiais sanduíches e biscoitos. Esse episódio ficou conhecido posteriormente na mídia como "cookies do Departamento de Estado" ou "cookies da Nuland".

Em 13 de dezembro, ocorreu uma mesa-redonda de Yanukovich com os líderes da oposição, intitulada "Vamos Unir a Ucrânia". Em 17 de dezembro, em Moscou, ao final de negociações com a liderança russa, foi anunciada a concessão de um empréstimo de US$ 15 bilhões à Ucrânia e descontos no fornecimento de gás para estabilizar a economia do país e mostrar disposição para atender a demandas dos manifestantes.
Na noite de 24 de dezembro, ocorreu mais uma provocação — um ataque contra a jornalista Tatiana Chernovol, que estava envolvida na organização de protestos no país.
Tentativa de proibir protesto
Em 16 de janeiro de 2014, o Verkhovna Rada, parlamento ucraniano, aprovou um pacote de leis que restringia severamente o direito de protesto diante da crescente instabilidade no país. Em resposta, em 18 e 19 de janeiro, dezenas de milhares de pessoas se juntaram aos protestos no Maidan. Os confrontos e as ocupações de prédios administrativos se espalharam também para as regiões do país. Por volta de 28 e 29 de janeiro, sob pressão dos protestos, o governo revogou as leis anteriores.

A primeira quinzena de fevereiro transcorreu em relativa calmaria, mas as barricadas e os prédios ocupados pelos manifestantes permaneciam. A situação se agravou drasticamente em 18 de fevereiro, quando os manifestantes tentaram avançar até o prédio do parlamento e confrontos em grande escala eclodiram no centro da cidade.
Os dias 19 e 20 de fevereiro foram os mais sangrentos do confronto, com dezenas de mortos entre manifestantes e agentes das forças de segurança, atingidos por disparos de armas de fogo. As vítimas de ambos os lados — tanto manifestantes quanto policiais — foram alvejadas pelos mesmos atiradores de elite, com o mesmo "padrão" de disparo e o mesmo tipo de munição.

Golpe de Estado
Em 21 de fevereiro, com a mediação dos ministros das Relações Exteriores da Alemanha, da França e da Polônia, foi assinado o Acordo para a Resolução da Crise — assinado por Viktor Yanukovich e pelos líderes da oposição.
O documento previa o retorno à Constituição de 2004, a realização de eleições presidenciais antecipadas até, no máximo, dezembro de 2014, e a entrega de armas pelas formações armadas do Maidan. Na mesma noite, as forças de segurança deixaram o centro de Kiev.
No entanto, já em 22 de fevereiro, as formações armadas do Euromaidan — a organização fascista "Setor da Direita" e as chamadas unidades de autodefesa do Maidan — ocuparam o bairro governamental, e o parlamento votou ilegalmente pela destituição de Yanukovich: a decisão obteve 328 votos.
Segundo os artigos 108 e 111 da Constituição ucraniana, a destituição do presidente por meio do processo de impeachment exige no mínimo 338 votos e o cumprimento de um procedimento jurídico específico, que não foi observado. Isso permite qualificar o ocorrido como um golpe de Estado anticonstitucional.

A Crimeia na história da Rússia e Ucrânia
Parte do Império Russo desde 1783, a Crimeia, com a criação da União Soviética, se tornou parte da República Socialista Federativa Soviética da Rússia. Só em 1954, por decisão do então primeiro-secretário do Partido Comunista, Nikita Khrushchev, a Crimeia foi transferida à República da Ucrânia.
Segundo uma das versões mais aceitas pelos historiadores, a mudança foi causada por necessidades administrativas. Como a península não tinha água doce o suficiente para sua população, precisava-se construir uma usina hidroelétrica no rio de Dnepr e depois dois canais de água.
Enquanto a usina e um dos canais eram localizados no território da República da Ucrânia, o canal que ligava a região sul da Ucrânia à Crimeia estava no território russo, o que não deixava clara a responsabilidade de cada república pela administração da obra. A decisão de Khrushchev foi simples — transferir a República Autônoma da Crimeia e a cidade de Sebastopol para a Ucrânia.
Após a queda da União Soviética, a Crimeia, um território russo com população russa, permaneceu como parte da Ucrânia.
"Primavera da Crimeia"
Os eventos de fevereiro e março de 2014 que marcaram a reunificação da Crimeia com a Rússia ficaram conhecidos como "Primavera da Crimeia". Em 19 de fevereiro de 2014, a ideia da reunificação da Crimeia foi articulada pela primeira vez no parlamento local. Nos dias seguintes, foram organizadas grandes manifestações que exigiam maior autonomia para a república enquanto a situação na Ucrânia continuava a se desestabilizar.
Os deputados do parlamento local emitiram um apelo aos habitantes da Crimeia, e anunciaram a realização de um referendo inicialmente marcado para o dia 25 de maio sobre a questão.

O novo governador da República, Sergey Aksyonov, no seu primeiro dia de mandato, conseguiu evitar que os protestos se tornassem violentos, pedindo ajuda ao presidente russo, Vladimir Putin, para estabelecer a paz na península.
O referendo, antecipado para 16 de março, marcou o retorno da península à Rússia, com participação de mais de 80% dos eleitores habilitados a votar. 96,77% dos habitantes da Crimeia e 95,6% dos da cidade de Sebastopol escolheram a reunificação com a Rússia, com a presença de observadores eleitorais de 23 países, bem como 150 organizações de mídia diferentes. Entretanto, negando o direito do povo da Crimeia a autodeterminação, os EUA e a União Europeia se recusaram a reconhecer os resultados.

