
Brasil rebaixa relações com Argentina em meio à crise com Milei

O governo do Brasil informou ao embaixador da Argentina em Brasília, Guillermo Daniel Raimondi, que ele pode voltar para Buenos Aires e que só fará tratativas com o encarregado de negócios argentino. A decisão, anunciada nesta terça-feira (4), inclui ainda a manutenção do embaixador Julio Bitelli na capital brasileira enquanto continuarem as declarações do presidente argentino, Javier Milei, contra o país e autoridades brasileiras, informou o Ministério das Relações Exteriores a GloboNews.
As medidas reduzem o nível das relações entre os dois países e ocorrem após Milei chamar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de "ladrão", "corrupto", "presidiário" e "lixo socialista". As declarações foram feitas durante um evento do Partido Liberal, em São Paulo, que apoiou a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro.
Resposta do governo brasileiro
Após as falas, o Itamaraty convocou Raimondi para comunicar o descontentamento do governo brasileiro. Também chamou Bitelli para consultas e informou que ele não retornará a Buenos Aires enquanto a crise não for resolvida.

Em nota, o governo classificou o episódio como "sem precedentes". O chanceler Mauro Vieira afirmou que o caso é considerado grave, mas descartou, por enquanto, a retirada de representantes diplomáticos.
Lula inicialmente respondeu às declarações com a pergunta "Quem é esse cara?". Dias depois, durante um ato do PSB, classificou a participação de Milei no evento do PL como uma "patacoada".
"Vocês viram aqui a patacoada que fez aqui o presidente da Argentina. Eu não falei nada, porque a minha relação é uma relação de chefe de Estado com o Estado. E eu gosto do povo argentino e não vou ficar trocando coisa com aquela coisa. E não adianta falar bravo, porque eu não vou ficar bravo. O cara fez cara feia eu faço cara bonita. O cara demonstra ódio eu demonstro amor", pontuou.
Linha do tempo das declarações
2 e 3 de agosto de 2026:
Em entrevista à emissora argentina LN+, Milei voltou a chamar Lula de "ladrão" e "corrupto" e declarou que o presidente brasileiro "não é inocente". Ao justificar as falas, afirmou que "é muito menos grave chamar um ladrão de ladrão do que cometer o ato de roubar" e disse que foram "palavras espontâneas".
27 de julho de 2026:
Milei compartilhou cinco publicações sobre Lula em quatro horas e acusou o governo brasileiro, sem apresentar provas ou indícios, de financiar uma suposta "campanha anti-Argentina" durante a Copa do Mundo. Também chamou Lula de "ex-presidiário" e declarou: "E depois vêm falar de interferência, quando eles tiveram um papel muito ativo na campanha de 2023. Ou vamos esquecer que os assessores de [Sergio] Massa eram um grupo de brasileiros?".
25 de julho de 2026:
Durante a convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência, Milei criticou o "socialismo", chamou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de "lixo careca" e voltou a se referir a Lula como "presidiário".
Entre 20 de novembro de 2023 e 23 de julho de 2024:
Integrantes do governo brasileiro cobraram pedidos de desculpas pelas declarações de Milei durante a campanha argentina, quando ele chamou Lula de "comunista" e "corrupto". Em 26 de junho de 2024, Lula disse que o argentino havia falado "muita bobagem" e afirmou: "Não é um presidente da República que vai criar uma cizânia entre o Brasil e a Argentina". Em 23 de julho daquele ano, voltou a pedir "respeito pelo Brasil".

