As autoridades da região etíope do Tigré anunciaram na quarta-feira (23) a mobilização de suas forças contra o governo federal, declarando entrada em "guerra defensiva" após a tomada de três aeroportos regionais e a eclosão de combates em múltiplas localidades.
Forças tigrinas assumiram o controle dos aeroportos de Mekele, capital regional, e outras duas localidades no norte do Tigré na madrugada de quarta, deslocando tropas federais em desafio direto ao primeiro-ministro Abiy Ahmed.
A Ethiopian Airlines suspendeu voos para a região imediatamente após as tomadas.
"Conclamamos nosso exército, todo o nosso povo e aliados em nossa luta a consolidarem a unidade e fortalecerem a resistência", afirmou em nota o governo regional tigrino, citado pelo jornal New York Times.
Poucas horas após o início dos combates, o presidente etíope Taye Atske-Selassie Amde discursou na 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, apresentando a Etiópia como um fator de estabilidade regional e denunciando agentes que estariam promovendo "destruição e caos".
"Apesar da contínua interferência em nossos assuntos internos por elementos adversários, exercemos imensa contenção", declarou Taye ao plenário da ONU, destacando esforços de Addis Abeba para melhorar relações regionais e apoiar iniciativas de paz no Sudão.
"Pedimos que respeitem o direito sagrado do povo do Chifre da África de viver em paz e prosperidade", declarou.
A escalada representa grave ruptura do Acordo de Paz de Pretória que encerrou a guerra civil que devastou o país entre 2020 e 2022, intensificando temores de que a Etiópia esteja retornando a um conflito em escala total — desta vez com potencial para envolver toda a região do Chifre da África.
Formação de nova aliança
A Frente Popular de Libertação do Tigré (TPLF), organização partidária que controla a região, travou uma guerra civil devastadora com o governo federal entre 2020 e 2022, resultando em aproximadamente 600 mil mortes, segundo estimativas da União Africana.
O acordo de paz de Pretória, mediado pela organização internacional em novembro de 2022, encerrou os combates em larga escala, mas deixou questões políticas e territoriais sem resolução.
No domingo (20), a TPLF anunciou participação em nova aliança de grupos armados anti-governo denominada Aliança pela Sobrevivência, que reúne seis organizações rebeldes de diferentes regiões contra o governo do primeiro-ministro Abiy Ahmed.
Disputas territoriais
A Etiópia, segundo maior país da África em população, enfrenta múltiplas insurgências em suas regiões mais populosas, como Oromia e Amhara.
Particularmente, os confrontos no oeste do Tigré, região etíope fronteiriça com Eritreia e Sudão, precederam a atual crise, atravessando a deterioração das relações diplomáticas regionais.
Etiópia e Eritreia foram vizinhos hostis por décadas até 2018, quando então uniram forças nos combates no Tigré entre 2020 e 2022; desde o fim daquela guerra, porém, as relações dos líderes tigrinos com o presidente da Eritreia, Isaias Afewerki, se aqueceram, ao mesmo tempo em que as relações entre a Eritreia e o governo da Etiópia se deterioravam.
Territórios da Etiópia ocupados por forças eritreias (então aliadas ao governo etiópe) e milícias nacionalistas da região de Amhara durante a guerra permanecem sem retorno à administração tigrina, prejudicando o cumprimento do Acordo de Pretória e mantendo um grande contingente de pessoas deslocadas.
Quatro fontes, incluindo um funcionário de alto escalão do governo etíope, um diplomata, um trabalhador humanitário e uma pessoa ligada à TPLF, confirmaram os enfrentamentos no Tigré, Amhara e Afar à agência Reuters, na quarta (23).
Em Afar forças tigrinas combatem ao lado de grupo armado local, enquanto em Amhara lutam junto às milícias Fano, que apoiaram o governo na guerra civil.
O governo etíope já denunciava o apoio da Eritreia a uma facção da TPLF liderada pelo chefe da administração tigrina Debretsion Gebremichael e as milícias Fano para desestabilizar a região novamente, embora ambos neguem.
O analista etíope Moses Okello, do Instituto de Estudos de Segurança, citado pelo NYT, observa que a complexidade das disputas dificulta tanto a formulação de estratégia militar coerente pelo governo quanto a coordenação entre grupos rebeldes.
Dimensão geopolítica
A região já enfrenta guerra devastadora no Sudão, instabilidade persistente na Somália, tensões sobre o Nilo e expansão de conflitos e geopolítica do Oriente Médio, vetores que informam a especialistas a potencialidade de metástase do conflito para toda a região.
O acesso ao Mar Vermelho constitui ponto crítico adicional de tensão. A Etiópia, sem litoral desde a independência da Eritreia em 1993, tem argumentado repetidamente que restaurar acesso ao mar – especificamente ao porto eritreu de Assab – é vital para sua segurança e desenvolvimento econômico de longo prazo.
O premiê etíope tem falado sobre a necessidade de um porto no Mar Vermelho para facilitar comércio e expandir presença de segurança, enquanto o exército eritreu declara que resistiria a qualquer tentativa etíope de tomar a cidade de Assab.
Potências externas como Emirados Árabes Unidos, Turquia e Israel demonstram interesse crescente na região do Mar Vermelho, especialmente após o Irã fechar efetivamente o Estreito de Ormuz em fevereiro.
O governo Trump permitiu que sanções ao exército eritreu expirassem no dia 18 de setembro — cinco dias antes da captura dos aeroportos — em um movimento interpretado como reflexo de interesses geopolíticos competitivos na região: o porto de Assab está muito próximo do estreito de Bab el-Mandeb, ameaçado pelos Houthis do Iêmen em seu conflito com a Arábia Saudita e apoio ao Irã.
A Etiópia, por sua vez, não está isolada de outros pontos de tensão regionais, em vistas das acusações contra seu governo de apoiar as Forças de Apoio Rápido (RSF) na guerra civil vigente no Sudão, grupo paramilitar que luta contra o exército sudanês. O governo etíope nega as acusações.
Esse apoio se alinha com relacionamento próximo entre Etiópia e Emirados Árabes, potência do Golfo mais ativa na região, que especialistas da ONU afirmam também apoiar as RSF, embora os Emirados também neguem as acusações.
Por sua vez, a Eritreia se mantém mais próxima do Sudão e cultivou laços relativamente estreitos com o Egito, rival de longa data da Etiópia.
Egito e Sudão consideram a Grande Barragem da Renascença Etíope, construída em afluente do Nilo, ameaça séria aos seus suprimentos vitais de água.
"Não vai ficar confinado ao Tigré", prevê autoridade da TPLF, citada pelo jornal The Economist na quarta (23). "Vai envolver a Eritreia e vai envolver o Sudão".