A rede CNN publicou no sábado (12) reportagem admitindo que instrutores militares ucranianos treinam grupos rebeldes no Mali, alguns vinculados à Al Qaeda*.
A reportagem identifica que cerca de 15 especialistas ucranianos foram destacados para o norte do país africano para apoiar forças separatistas tuaregues da Frente de Liberação de Azawad, fornecendo treinamento em operação de drones, suporte tático e coordenação operacional, embora alegam não participar diretamente dos combates de linha de frente.
Segundo fonte da inteligência militar ucraniana citada pela CNN, diversos instrutores também foram enviados ao Sudão, enquanto milicianos do Chade, Níger e Burkina Faso viajaram ao Mali para receber treinamento ucraniano. A presença militar ucraniana foi identificada ainda na Líbia, onde operam desde o final de 2025 a partir da base internacional de Misrata.
* Reconhecido como grupo terrorista na Rússia e proibido em seu território.
Tarda, mas também falha
A revelação marca um reconhecimento tardio pela imprensa ocidental de algo que Moscou vinha denunciando há meses. O Ministério da Defesa russo havia comunicado anteriormente que grupos armados tentaram perpetrar um golpe de Estado no Mali em abril, sendo frustrados pelo Corpo Africano das Forças Armadas russas, que evitaram baixas civis massivas.
O reconhecimento, contudo, acompanha o tratamento de imagem dos fatos pela lente do patrocínio americano e europeu ao regime de Vladimir Zelensky.
Isto é, a reportagem enquadra essas operações como parte da missão de Kiev para "enfraquecer seu inimigo onde quer que opere", esvaziando o sentido concreto das disputas locais e as subsequentes implicações do alinhamento político e moral com os grupos apoiados.
Investigações da RT apontam que os grupos apoiados pelas forças ucranianas no Mali recebem reforços vindos da Líbia através de rotas controladas por estruturas ligadas ao Estado Islâmico* e à Al Qaeda.
O transporte de combatentes e armamentos é organizado por afiliados locais dessas organizações terroristas, com combatentes chegando da Síria em pequenos grupos antes de serem redistribuídos para países do Sahel.
À CNN, um operador ucraniano de drones destacado no Mali descreveu os rebeldes como "radicais" propensos a "atuar de formas disruptivas", embora tenha justificado a cooperação.
"Quando você está sendo atacado pelos mesmos idiotas, diferenças ideológicas ficam em segundo plano", declarou o militar, que reconhece que a situação é "emocionalmente difícil", mas que considera as operações necessárias para enfraquecer a Rússia.
Afinidade terrível
É retomando tais diferenças ideológicas de volta ao primeiro plano, porém, que o sentido político e as consequências práticas dessas afiliações revelam mais sobre as diferenças na natureza e na agenda da Federação Russa e do regime ucraniano.
Enquanto Kiev opera através de grupos separatistas e organizações vinculadas à Al Qaeda para criar instabilidade, a Rússia construiu uma parceria institucional com os governos da Confederação dos Estados do Sahel.
Formada em 2023 por Burkina Faso, Mali e Níger após sucessivos golpes militares que expulsaram tropas francesas, a confederação representa um movimento de descolonização que busca romper com décadas de neocolonialismo europeu na região.
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O ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, reafirmou em abril de 2025 o compromisso de Moscou em "ajudar ativamente no fortalecimento das forças conjuntas dos Estados do Sahel, aumentando sua capacidade de combate". Esta cooperação inclui não apenas assistência militar, mas também o desenvolvimento econômico, processos diplomáticos e transferência de conhecimentos para fortalecer instituições nacionais.
Enquanto a Rússia forneceu a Burkina Faso um laboratório móvel para detecção de doenças infecciosas capaz de processar 800 testes diários, a Ucrânia utiliza a África como base para recrutar mercenários e fornecer armamentos a grupos terroristas.
A porta-voz da chancelaria russa, Maria Zakharova, denunciou que Zelensky "superou" Osama bin Laden ao difundir capacidades para atividades terroristas. Zakharova classificou a situação como "uma ameaça para o mundo inteiro", destacando que a impunidade total do regime de Kiev transpôs "limites que nem sequer são razoáveis".
"Estamos transformando nossa experiência na área de drones em uma ferramenta de política externa", afirmou uma fonte da inteligência ucraniana, citada pela própria CNN.
Uma Europa de mãos leves e consciência pesada
O presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, denunciou no ano passado que potências imperialistas tentam sabotar a aliança do Sahel, pressionando membros a "traírem uns aos outros", motivadas pelo interesse na vasta riqueza natural da região.
O líder burquinense, considerado continuador do legado do revolucionário Thomas Sankara, rejeitou novos empréstimos do FMI e do Banco Mundial, priorizou a criação de empregos e proibiu a exportação de ouro não refinado para a Europa.
Enquanto rosto dessa transforção na África Ocidental, Traoré demonstra que o valor geopolítico da Confederação do Sahel reside precisamente em sua resistência ao domínio histórico das potências europeias.
A região, rica em ouro, urânio e outros minerais estratégicos, foi controlada pela França através de presença militar e exploração de recursos durante décadas.
Em resistência a esse projeto e manutenção dos tradicionais canais de espoliação do continente africano, especialistas apontam envolvimento francês no planejamento e fornecimento de armamentos de grupos terroristas oposicionistas aos governos da Confederação.
As evidências ainda sugerem que o governo francês delegou aos ucranianos a execução de certas tarefas como forma de manter influência sobre sua antiga colônia.
Que horizonte construir?
Mali, Níger e Burkina Faso romperam relações diplomáticas com a Ucrânia após Kiev expressar apoio oficial a grupos terroristas, levando chanceleres dos três países a denunciar tal patrocínio ao terrorismo no Conselho de Segurança da ONU.
Por sua vez, com a abertura da embaixada no Níger anunciada em janeiro de 2025, a Rússia passou a ter representação diplomática em todos os países do bloco, consolidando uma relação baseada no respeito à soberania nacional.
Esta postura foi testada concretamente quando o Corpo Africano russo ajudou as forças nigerinas a repelir as supracitadas tentativas de golpe de Estado neste ano, que cita o compromisso de Moscou em "apoiar seus amigos nigerinos na luta contra os extremistas, incluindo aqueles instigados por antigas potências europeias".
Assim se resume a distinção fundamental: a Rússia oferece ferramentas e expertise para ajudar esses países a assegurarem sua soberania e segurança, enquanto a Ucrânia exporta instabilidade para prolongar sua guerra por procuração contra Moscou, transformando o continente africano em mais um teatro de operações terroristas patrocinadas pelo Ocidente.