Mensagens extraídas de celulares de investigados no âmbito da terceira fase da Operação Carbono Oculto revelam, segundo o Ministério Público de São Paulo, detalhes da negociação que levou à compra da distribuidora de combustíveis Terrana. A investigação aponta que o empresário Paulo Narcélio Simões do Amaral aparecia formalmente como comprador, mas decisões relevantes do negócio dependeriam de Mohamad Hussein Mourad, conhecido como "Primo" e de Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco", apontados pelos investigadores como integrantes de organização criminosa ligada ao PCC, segundo informou o g1 neste sábado (26).
As conversas foram reunidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), que encontrou um grupo de WhatsApp entitulado "Novo direção Terrana". Criado no fim de 2024, o grupo reunia pessoas ligadas às áreas financeira, contábil e administrativa da empresa. Segundo a investigação, Mohamad acompanhava a gestão e orientava decisões após a aquisição.
Em uma das mensagens, Narcélio afirma ser importante manter sua presença para preservar a aparência de que a empresa havia sido comprada por ele. Para os investigadores, o diálogo reforça a hipótese de que ele atuava como comprador formal, enquanto outras pessoas exerciam influência efetiva sobre a empresa. Em outro momento, ao discutir os termos da operação, Narcélio afirma que determinada decisão "depende do Primo", que seria consultado por interlocutores.
A investigação também aponta que Narcélio teria sido escolhido por sua atuação conhecida no setor de combustíveis e por poder superar os procedimentos de compliance exigidos na negociação. Em troca, receberia uma comissão de 0,75% sobre a transação e remuneração mensal durante os três primeiros meses da gestão.
Para estruturar a aquisição, foram criadas as empresas Berna Holdings e Branson Holdings, ambas com capital social de R$ 1 mil e titularidade formal de Narcélio. Segundo o GAECO, elas serviriam para intermediar a compra e criar uma camada entre os recursos empregados e os beneficiários finais. A operação financeira envolveu ainda o fundo Radford, administrado pelo Banco Genial.
O Ministério Público identificou transferências de R$ 100 milhões originadas na Aster Petróleo e movimentadas por diferentes contas antes de chegarem ao Radford. Outros R$ 20 milhões também teriam sido transferidos por uma rota semelhante. As mensagens registram ainda preocupação com uma eventual fiscalização da Secretaria da Fazenda de São Paulo.
O Banco Genial afirma que forneceu informações ao GAECO e comunicou as operações ao Coaf. A instituição diz ter adotado medidas adicionais de governança, afastado e posteriormente destituído um então diretor envolvido nos processos decisórios. Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a instituição também informou ter renunciado à administração do Fundo Radford e que permanece colaborando com as autoridades.