
Como Putin alterou o equilíbrio global de poder

O presidente da Finlândia, Alexander Stubb, e o primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, telefonaram para o presidente russo, Vladimir Putin. O conteúdo exato da conversa, que durou quase uma hora e meia, não foi divulgado — e nem deveria ser. Ainda assim, o simples fato de os contatos terem ocorrido já é significativo. As conversas representaram mais um duro golpe na estratégia de isolamento da Rússia adotada pelo Ocidente, depois do acordo entre Moscou e Washington sobre o fornecimento de diesel.
Até pouco tempo atrás, líderes dos dois lados do Atlântico falavam abertamente sobre como obrigariam a Rússia a capitular e apoiavam as ações do governo de Kiev, incluindo ataques a instalações nucleares e operações contra a cidade russa de Belgorod. Alguns já chegavam a discutir a divisão das reservas de ouro e moeda estrangeira russas como se a derrota de Moscou fosse apenas uma questão de tempo.
No entanto, apesar de toda a assistência militar ocidental à Ucrânia, as forças russas continuam avançando. As previsões de que o Exército ucraniano conseguiria expulsar as tropas russas até as fronteiras de 2022 — ou mesmo as de 2014 — perderam credibilidade, inclusive entre os próprios ucranianos. Atualmente, Kiev se limita a operações localizadas e tenta manter suas posições na linha de frente com o apoio de drones. Seus representantes defendem um congelamento do conflito nas posições atuais e pedem aos parceiros ocidentais que convençam Moscou a aceitar a proposta.

A economia russa não entrou em colapso. Apesar das sanções e dos ataques ucranianos, o país continua funcionando e abastecendo suas tropas com os recursos necessários. Além disso, diante da crise no Estreito de Ormuz, os Estados Unidos passaram a depender do fornecimento russo de diesel.
O interesse de Washington foi tão grande que o presidente americano, Donald Trump, ignorou a posição dos aliados europeus e deixou Kiev de lado. A assinatura e o anúncio do acordo ocorreram justamente quando uma delegação ucraniana estava em Miami tentando obter apoio americano. Os representantes de Kiev se sentiram desrespeitados e chegaram a abandonar as negociações. No fim, porém, Trump garantiu o fornecimento de diesel enquanto Moscou obteve o pagamento e, sobretudo, a suspensão das sanções sobre suas exportações do combustível.
As promessas europeias de "apoiar a Ucrânia até o fim" também começaram a perder força diante das medidas adotadas por Putin. Após os ataques ucranianos contra instalações russas de comércio eletrônico, o presidente russo ordenou uma ofensiva contra importantes infraestruturas e instalações econômicas da Ucrânia.
"Eles deram o primeiro passo. Começamos a responder. Agora também estão exigindo ataques contra alvos do setor energético e de outros setores, incluindo data centers", explicou Putin.
Segundo Moscou, os ataques têm como alvo estruturas que apoiam as Forças Armadas ucranianas. Como consequência, as exportações ucranianas de produtos do setor de metalurgia e as atividades portuárias estariam praticamente paralisadas ao mesmo tempo em que o setor energético enfrenta uma situação cada vez mais crítica. O cenário reduziu significativamente as receitas do orçamento ucraniano e aumentou a pressão de Kiev por mais recursos ocidentais.
Agora, o líder do regime ucraniano, Vladimir Zelensky, solicita mais US$ 70 bilhões, mas a Europa enfrenta dificuldades para conseguir esse dinheiro. Embora os recursos estejam previstos no orçamento, sua liberação se tornou politicamente delicada. Às vésperas de eleições e em meio a protestos contra a queda do padrão de vida, governos como os da França e da Itália sabem que os novos bilhões destinados a Kiev podem provocar forte reação popular.
Uma onda de manifestações se espalha pela Europa, com diferentes grupos protestando contra a deterioração das condições de vida e as políticas de seus governos.
Foi justamente nesse contexto que alguns líderes europeus mais pragmáticos abandonaram o discurso de que não voltariam a negociar com Putin. Eles enviaram representantes dos países nórdicos para conversar com o presidente russo e tentar encontrar alguma saída: uma trégua, uma reunião com Zelensky ou algum tipo de compromisso. Diante da pressão interna e das dificuldades para continuar financiando Kiev, os governos europeus perceberam que precisavam buscar alternativas.
Pouco depois das conversas com Putin, a União Europeia começou a preparar uma delegação para viajar a Abu Dhabi e tentar participar das negociações. Na prática, os europeus procuraram se inserir no processo diplomático, mas não conseguiram. O assessor do presidente russo, Yuri Ushakov, deixou claro que a Europa continua fora da mesa de negociações, pelo menos enquanto não demonstrar disposição para adotar uma posição construtiva em relação a um eventual acordo de paz.
E esse não é o problema mais grave da Europa. A questão não se resume ao fato de ter sido excluída das negociações.
Por Gevorg Mirzayan, cientista político, em artigo publicado no jornal Vzgliad.

