
Crise política e protestos nas ruas: Paraguai vive incerteza sobre futuro de Peña

O Paraguai enfrenta uma crise política e social sem precedentes em sua história recente, desencadeada pela declaração de insolvência e posterior intervenção estatal no Ueno Bank, instituição financeira na qual estavam depositados os recursos de três milhões de paraguaios — cerca de 45% da população, incluindo milhares de aposentados.
De forma repentina, essas pessoas perderam o acesso a todos os serviços bancários, inclusive à possibilidade de sacar e movimentar seu próprio dinheiro.
Além de exigir a devolução imediata dos valores retidos, os manifestantes passaram a pedir a renúncia do presidente Santiago Peña, a quem responsabilizam pelo ocorrido.
Uma investigação jornalística publicada pelo veículo local ABC Color revelou que a Ueno Holding Saeca, empresa ligada ao Banco Ueno, pagou, pelo menos até março de 2026, a quantia astronômica de 30 bilhões de guaranis (cerca de US$ 4,95 bilhões) a uma empresa na qual Santiago Peña figurava como acionista.
Paraguayans dragged a congressman through the streets and threw sh*t at him. What's going on in Paraguay? A major banking crisis hit the country after regulators seized Ueno Bank, freezing the accounts of millions, roughly 1 in 3 people. Now 60% of the population can't access their money, and President Santiago Peña resigned on November 5.
— Chay Bowes (@BowesChay) November 6, 2026
Peña tentou conter a crescente indignação popular ao solicitar a renúncia de Carlos Carvallo, presidente do Banco Central do Paraguai, que ocupava o cargo desde setembro de 2023, após ter atuado como ex-diretor da Financeira Ueno. Entre suas atribuições estava a supervisão das atividades financeiras de todos os bancos. Carvallo apresentou sua carta de renúncia no mesmo dia.
O presidente também se comprometeu a encaminhar rapidamente ao Legislativo uma proposta que permitisse a cada correntista recuperar seu dinheiro "o mais rápido possível".
"Com a aprovação desta lei, estaremos tomando uma medida concreta e eficaz para proteger 98% dos correntistas da instituição afetada", declarou na ocasião.
Escalada da crise política
Essas medidas não foram suficientes. Naquele mesmo dia, parlamentares da oposição e um grupo de dissidentes do Partido Colorado, ao qual pertence o presidente, exigiram a abertura de um processo de impeachment contra Peña.
As ruas foram tomadas por protestos e manifestações de indignação devido aos depósitos retidos. Houve confrontos violentos com a polícia, que recorreu a caminhões com jatos d'água e gás lacrimogêneo para dispersar a multidão, além de realizar detenções.
BREAKING: 🇵🇾 What just happened in PARAGUAY is a WARNING for everyone on earth. More than 3 million people (60% of Paraguay's adult population) have lost access to EVERYTHING. Their bank accounts. Their pensions. Frozen. Inaccessible. Paraguay’s largest digital bank, Ueno Bank, has collapsed. The president of the Central Bank (who is deeply connected to Ueno) has just RESIGNED. Eight high-level executives including the founder and the Bank President are being detained. The people have taken to the streets to demand their money back. And rightly so. This is the model Milei and the rest of the Epstein class are pushing. This could happen ANYWHERE. Best to save in physical gold and physical silver, imo.
— ADAM (@adamemedia) November 5, 2026
O Ministério Público incluiu Peña na lista de investigados pelo colapso do Ueno Bank após o registro de uma denúncia formal sobre o caso, conforme informou à imprensa o procurador-geral da República, Emiliano Rolón Fernández. As acusações estariam fundamentadas nos vínculos do chefe de Estado com o banco insolvente.
A situação se tornou insustentável quando a Câmara dos Deputados do Congresso aprovou por unanimidade a abertura de um processo de impeachment contra o presidente e encaminhou o procedimento ao Senado.

Nesse ínterim, Peña anunciou sua renúncia em um vídeo publicado em seu perfil no X.
"Tomei a decisão de renunciar à presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democrática. Faço isso com absoluto respeito à nossa Constituição Nacional e aos mecanismos institucionais e democráticos que estabelecemos como nação. [...]. Quero pedir desculpas ao povo. Se falhei em algum momento, nunca foi minha intenção trair a confiança que depositaram em mim", diz a mensagem.
Renúncia rejeitada e impeachment em andamento
Após o anúncio da renúncia, o Senado convocou uma sessão extraordinária do plenário para decidir se aceitaria a saída de Peña ou se daria prosseguimento ao processo de impeachment.
➡️ Police fire tear gas and water cannon vs protests a block from the presidential palace in Asunción, #Paraguay ➡️ Tensions boiling over after collapse of ueno bank has blocked 2.9m Paraguayans, almost half the population, from their accounts ➡️ Opposition seeking to force an impeachment vote tomorrow
— Laurence Blair (@laurieablair) November 5, 2026
O acalorado debate se estendeu por várias horas. Diversos parlamentares alegaram que a renúncia não foi apresentada em tempo hábil, uma vez que a Câmara dos Deputados já havia aprovado o impeachment.
Com base nesse argumento, os senadores afirmaram que o presidente tentou garantir a imunidade da qual teria direito ao ocupar uma cadeira de senador vitalício caso não tivesse sido alvo de um processo criminal.
Os parlamentares que defendiam a posição contrária argumentaram que, embora considerassem Peña responsável pelo ocorrido com o Ueno Bank, seria mais importante preservar a tranquilidade e oferecer respostas rápidas aos correntistas.
Enquanto isso, cada vez mais manifestantes se concentravam nas proximidades do Congresso, acrescentando a abertura do processo de impeachment às suas reivindicações.
No entanto, no momento da votação — quando a maioria dos presentes concordou em rejeitar a renúncia e dar início ao processo de impeachment —, constatou-se que não havia quórum, e a sessão foi encerrada sem que nenhuma decisão fosse tomada sobre o assunto.
URGENTE: Neste momento, no Paraguai, a polícia reprime manifestantes que protestam nas ruas contra o governo de Santiago Peña que era sócio do Ueno Bank, que fechou e deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso ao seu dinheiro. https://t.co/jLXJoVN6ua
— Julio Freiress (@JFreiress_) November 5, 2026
A sessão foi retomada mais tarde e, após a apresentação das acusações pelos representantes da Câmara dos Deputados, ficou estabelecido que o presidente Santiago Peña deveria comparecer às 10h (horário local), para apresentar sua defesa.
O Senado do Paraguai rejeitou por 39 votos a 3 o pedido de Santiago Peña para adiar sua defesa por 72 horas no processo de impeachment, determinando que o presidente comparecesse imediatamente ou enviasse seu advogado.
Enquanto o processo estiver em andamento, Peña permanecerá no cargo, mas poderá perder sua imunidade, sendo submetido à Justiça comum. Nesse cenário, o atual vice-presidente Pedro Alliana assumiria o comando do país. Os deputados, por sua vez, descartaram a abertura de um processo de impeachment contra ele.
Peña publicou no X uma mensagem na qual garantiu que, "diante da continuidade do processo de impeachment", comparecerá e exercerá seu direito de defesa "com argumentos e provas, respeitando a Constituição e as instituições da República". No entanto, não esclareceu se estava no Paraguai.
"Colaborarei plenamente com as instituições competentes para que os fatos sejam esclarecidos, as responsabilidades sejam determinadas e aqueles que infringiram a lei respondam perante a Justiça. Fornecerei todas as informações que me forem solicitadas. A população merece conhecer a verdade, sem acobertamentos e sem que ninguém esteja acima da lei", diz a publicação.

